Quem você sairá disso?

Por: Felipe Sandrin | 04/03/2020 06:00:02

Compulsões e vícios se potencializam, relações desestabilizam. Quem tem problemas alimentares come sem parar, aqueles que usam ansiolíticos intensificam a necessidade de medicamentos e quem já tinha dificuldades para dormir agora dorme com intervalos ainda mais curtos. Cada um em sua própria quarentena, um isolamento que faz sobressair justamente aquilo que de mais fraco possuímos.

Do outro lado, aqueles que se prontificam a um quase retiro espiritual. Comida mais saudável, exercícios caseiros, e aquele famoso “tempo que nos falta” finalmente lhes permite organizar a vida pré-crise. Quem é você em meio ao tsunami? O que teus olhos captam entre o caos do convívio consigo?

Nos primeiros dias medo, agora o medo dá lugar ao tédio. A frase da vez: “Prefiro pegar isso aí de uma vez do que ficar trancado”. Para as próximas semanas, o prognóstico da falta de paciência se intensificará. Ficar em casa? Não existirá decreto capaz de conter a sagacidade das mentes inquietas. Entre tantos mistérios de nossa psique uma coisa é simples de ser constatada: a impaciência sempre domina os cenários.

Entre opiniões desconexas, aqueles que conseguem focar em observar os indivíduos acabam por crescer suas percepções. Por que alguns entre o caos se evidenciam tão prontos e líderes enquanto outros se revelam a miséria e a queda iminente? O que define os que sucumbem daqueles que saem ainda melhores?

Você está trancado em casa ou está em um retiro espiritual? Você está lendo livros ou assistindo besteiras da TV? Você está grudado no celular ou finalmente conseguiu se desconectar? É esse o momento de você fazer tudo aquilo que você dizia não ter tempo. Qual será sua biografia pós-crise, que história você contará? Dirá apenas que ficou trancado em casa ou que ali aconteceu a base de um novo crescimento?

Não deixe o tédio se sobressair, não troque o medo por algo ainda mais vulgar, nem deixe sua vida se revelar atravancada como você já imaginava ser. Eis um momento de saber exatamente onde repousa seu lado mais frágil, o lado que você mais necessita evoluir antes que sua vida chegue naquele momento onde apenas nos acostumamos com tudo, inclusive com a infelicidade.

Há pessoas que, em meio ao caos, extraem a verdade que move e dá sentido à vida. Há outros – esses a maioria – que simplesmente sucumbem e revelam o futuro próximo. Qual “eu” você está conhecendo em meio ao caos?


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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