Senhor do próprio silêncio

Por: Felipe Sandrin | 01/12/2017 00:00:00

Cinco da tarde, a cafeteria está cheia, o barulho das conversas cresce à medida em que todos sobem o tom para compensar a pessoa que quase grita ao lado. Há o barulho das bombas que fervem o leite, das xícaras sendo lavadas e das moedas sendo organizadas pela moça que controla o caixa. Tomar um café em lugares lotados pode ser muita coisa, menos um momento de paz.
Observo um senhor ao centro desse local lotado, ele está sereno, seus olhos não se desviam da mesa, nada parece perturbá-lo. Ele está em uma atípica paz, uma paz treinada. Diante dele, um livro – um silencioso, inanimado e elegante livro. Chama-me tanto a atenção esse imperturbável senhor que eu decido nesse momento que eu quero essa paz. Desde então, um livro passou a me acompanhar a lugares assim.
O primeiro que li e me ensinou a esquecer do mundo barulhento foi “Modernidade líquida”. Lembro como se fosse hoje nosso encontro, minha primeira surpresa foi saber que o escritor em questão estava vivo. Como assim? Uma mente tão genial viva? Alguém tão espetacular pertencente ao meu tempo? Talvez a maioria de vocês nunca tenha sentido isso, o deslumbre de pertencer a um mesmo tempo que alguém incrível. Zygmunt Bauman faleceu nesta semana, deixou a mortalidade para se tornar finalmente um homem sem tempo, unificado em presente e futuro. Nunca o conheci, mas conheci seu trabalho – muito do qual ainda nem consegui compreender. Faz-me pensar sua morte: que triste deve ser envelhecer sem ter os livros como companhia.
Partem os amigos e os amores, caem os cabelos e os olhos perdem um pouco do brilho. Envelhecer é uma experiência nada menos que reveladora: revela a fragilidade, escancara a verdade em nossa face. Você não controla nada. Abraço um livro, sua silenciosa companhia faz com que eu aprecie a minha, sou eu aí, interpretando, sentindo, esquecendo as mesas barulhentas ao lado. Para tantos, um simples livro. Para quem lê, uma ilha, um momento em que o seu você se encontra.
Morre Zygmunt Bauman, um estranho para tantos, nome quase impronunciável. Não sabem vocês o gênio que ele era, os conceitos que criou, os presságios que na época fariam rir. Acertou para onde iríamos, previu o surgimento do que hoje chamamos de Facebook e tinha certeza de que, em breve, nossos olhos se voltariam para um mundo fora daquele que chamamos real.
Sento-me em um fim de tarde no café lotado, há barulho, há pessoas disputando um espaço de corpos e som. Abro o livro, surge então o vácuo, a única voz que me rouba é a da atendente, o único gosto é o do café e meu único interesse é o diálogo que o livro possibilita. Por vezes, fecho esse livro e relembro as pessoas que me cercam, escuto partes de seus assuntos e me entristeço com tanto desperdício. Nada contra o trivial, o problema é o trivial sempre, o disco riscado que engana a mente e nos ocupa com qualquer coisa que nos faça esquecer a irrelevância dos assuntos que tratamos como fundamentais.
Tempos de euforia, da moça que espera o café ao homem engravatado na fila do pão. Um senhor em uma mesa do canto levanta e vai embora, ele não vai mais voltar, poucos o notam. Era um gênio disfarçado de cliente. Daqui a mil anos ninguém que estava lá existirá, nem a própria cafeteria, mas esse senhor que ninguém notou sim, ele vencerá o tempo, o descaso e o barulho. A única pessoa em silêncio era a única que realmente tinha algo a dizer.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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