O mundo que você vê é o mundo que você é

Por: Felipe Sandrin | 04/10/2020 06:00:26

Não importa sua situação atual, se está preenchida na sensação de ter encontrado a pessoa feita para você ou se está sozinha achando que o mundo é um lugar cruel que lhe negará até mesmo pequenas alegrias. O que importa mesmo é que a luz de um final de tarde entrará pela janela, iluminará o quarto que lhe guarda, a cama em que você deita e os travesseiros que já testemunharam suas lágrimas.

Eu sei que tudo pode parecer tão cruel e solitário às vezes, mas você também sabe que há pequenas fagulhas que nos inundam com uma felicidade nunca antes sentida. O segredo para a dor e para a alegria está nessa luz de cada dia. Mesmo quando chove, mesmo quando lá fora e aqui dentro desaba o mundo, ainda assim algo ilumina, algo nos permite ver o reflexo das gotas que consecutivamente se sucedem como se quisessem lavar algo que nem elas próprias ainda conhecem.

É curta a vida de uma gota de chuva aos nossos olhos, mas o percurso que a vemos seguir é apenas uma pequena parte do caminho já percorrido: assim como você e sua vida. Sei que você assiste a dados momentos com saudade, sei que mesmo na felicidade existe uma luz vermelha que lhe alerta para antigos sofrimentos que ainda perduram. Eu sei de tudo isso, do anoitecer que espreita, do cinza que empobrece e do silêncio que paira.

Abra os olhos para a vida. Há um lugar lá na frente que te espera, talvez você esteja acompanhada, talvez não. Talvez esteja amando, talvez não. Mas há esse lugar, há esse amanhã e após ele outro, e outro. Como você poderia desistir disso? Como pode na dor do presente achar que a vida só se faz até ali? Como poderia aquela gota de chuva ser só o percurso em que foi vista ou os raios de sol se findarem quando alguém fecha a janela?

Nossos pés precisam tocar o chão, cravarem-se sobre a realidade. Nossas mãos querem por natureza desenhar essa realidade mais encantadora. Nossa boca implora para que falemos a verdade, para que a pronunciemos mesmo mediante a dor daquilo que declara nossas responsabilidades. E, por fim, nossos olhos, ah nossos olhos, essas janelas que apenas quando limpas se tornam a possibilidade de ver esse mundo exterior melhor.

Não há outra forma de vermos tudo, de vermos o mundo senão pelo olhar que voltamos para dentro. Está tudo ali, toda fé e desprezo; toda revolta e esperança; todo desapontamento e tentar novamente. É na simples forma que nos vemos, é apenas sobre isso que se trata: é na forma como nos vemos que vemos o mundo.

Há tantos gritos no silêncio, tanto desespero disfarçado. Há tantos que poucos ainda parecem dispostos a arriscar um pedido de ajuda. O mundo visto por pequenos aparelhos, um mundo inteiro que parece caber na gente quando na verdade nem nós cabemos em nós mesmos.

Mas olha só, há por aí um novo quarto esperando por sua nova história. Uma cama que testemunhará teus prazeres e uma luz de presença que lhe parecerá diferente de todas as outras. Você só precisa continuar vivendo, continuar tentando e continuar abrindo as janelas. Não é um jogo sobre se esconder, mas, sim, sobre querer se encontrar... e nessa busca encontrar-se.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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