De médico e de louco...

Por: Greice Scotton Locatelli | 17/04/2020 06:00:00

Que a história me perdoe, mas o tradicional ditado merece um adendo: de médico, de louco e de especialista em COVID-19 todo mundo tem um pouco. Não se trata de exagero, é a mais pura realidade.

De repente, a massificação da informação, somada à ociosidade do isolamento e à instantaneidade das redes sociais transformou gente comum em especialistas em pandemia. Impressionante como alguns têm a resposta na ponta da língua para qualquer ideia que surja – sempre contrários a qualquer iniciativa, óbvio. 

Quando se decreta isolamento, reclamam que a economia vai entrar em colapso. Quando se flexibilizam as medidas, responsabilizam as autoridades pelas mortes que ocorrerão. Reclamam quando as lotéricas estão fechadas, mas tão logo abrem correm para a fila, sem distanciamento nem proteção alguma, para jogar na Mega-sena. No alto de suas “especialidades”, alertam as autoridades que o inverno está chegando e que pode ser pior segurar todo mundo em casa nessa época. Você realmente acha que ninguém pensou nisso?

A pandemia tem mostrado um lado obscuro e egoísta de muitas pessoas: desde as que correram fazer estoques absurdos de papel higiênico quando as primeiras notícias surgiram até as que saem de casa sem nenhuma necessidade, mesmo sendo do grupo de risco, por pura teimosia.

Ah, mas você não aguenta mais ficar em casa? Não é o único, infelizmente. Seu casamento está desmoronando porque a convivência se tornou insuportável? É a realidade de muitos. Está enlouquecendo com as crianças em casa, entediadas? Bem-vindo! Não sabe mais o que fazer para impedir que os idosos da família saiam sem necessidade? Se descobrir como, avise! Está desesperado sem saber como fará para pagar as contas? São poucos que não estão exatamente na mesma situação.

A verdade é que ninguém – NINGUÉM – tem respostas. Se a solução existisse, todos os países afetados já teriam copiado a fórmula mágica. Se sabe muito sobre esse vírus e ao mesmo tempo muito pouco. Mas uma coisa é certa: “achismos”, fofocas de WhatsApp e opiniões vazias só atrapalham. E no meio dessa loucura que se tornou a rotina de todos nós, é preciso lembrar que certas coisas não mudaram: a privacidade e o sigilo médico/paciente é uma delas.

Então, de novo, não adianta querer saber o nome das pessoas contaminadas em Bento nem o histórico médico de alguém que morreu com suspeita da doença. Ao mesmo tempo em que não adianta discutir com quem apenas transmite a informação – seja um médico, um secretário de saúde, um prefeito ou um jornalista. Se a cidade tem 19 casos confirmados e 9 curados, não significa que só haja 10 casos. Não é porque a pessoa se curou que a doença deixou de existir e de ser contabilizada na estatística. O mesmo vale para os casos suspeitos – se ainda constam como suspeitos é porque, por algum motivo, o teste não pôde ser feito. Certamente, se houvesse como ser diferente isso, já teria sido resolvido. O fato de você acusar as autoridades no Facebook ou de falar o óbvio (“é só usar a cloroquina”) não vai mudar a situação, só causar mais raiva em quem precisa se concentrar em salvar vidas.

A pandemia de Coronavírus tem obrigado a humanidade a tomar decisões de forma rápida, sem o mínimo de certeza da efetividade delas. Mas a arrogância de alguns, somada à falsa sensação de anonimato típica das redes sociais, tem dificultado uma situação já complicada por si só. E isso precisa mudar. 
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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