Será que aprenderemos a lição?

Por: Greice Scotton Locatelli | 24/04/2020 06:00:45

Tenho ouvido muita gente dizer que quando a pandemia der uma trégua teremos aprendido valiosas lições de vida. Será? 
Talvez seja arriscado de minha parte fazer comparações com situações do mundo antes da COVID-19, mas mesmo assim quero provocar essa reflexão. Quantas pessoas você conhece que tiveram a vida virada de cabeça para baixo e que, além de não terem aprendido uma determinada lição, voltaram a ser até piores do que antes? 

Nesta semana eu li um texto atribuído a Augusto Cury que encaixa bem nesse contexto. Nele, o autor argumenta que foi necessário um vírus para desacelerar o planeta, para percebermos a importância e fragilidade dos nossos idosos, para passarmos mais tempo com os nossos filhos, para darmos valor às coisas simples do dia a dia. 

A teoria é realmente linda. Mas, e a prática?

Voltemos à vida real: quanta gente você conhece que está com o casamento por um fio porque não suporta mais o marido/esposa depois de algumas semanas de isolamento em casa? Quantos pais/mães que, apesar do amor incondicional típico, dariam tudo para tirar umas horas de folga dos próprios filhos depois de tanta convivência forçada?

Quanta gente que está agradecendo ao universo por ter uma desculpa justificada para não se encontrar com a própria família? E quantos não se deprimiram porque, de uma hora para outra, perderam todas as “muletas” que usavam para não viverem plenamente as próprias vidas? 

Durante a pandemia, muitos chegaram a uma conclusão preocupante: não suportam a própria companhia. E agora?
A disseminação do novo Coronavírus tem sido o período mais complicado da história recente da humanidade. As recomendações de lavar as mãos, higienizar calçados, superfícies, se preservar fisicamente são lembradas todos os dias, exaustivamente. Agora suponhamos que amanhã tudo voltasse ao normal. Mas ao normal mesmo, sem nenhum tipo de restrição, sem sequer a necessidade de medidas de higiene. Você teria aprendido como é importante lavar as mãos?

Seguiria higienizando calçados e compras que traria do mercado? Passaria mais tempo brincando com os seus filhos mesmo não sendo obrigado pela força das circunstâncias? Ou será que tão logo tudo isso for passado a gente vai voltar a ser exatamente os mesmos de quando essa crise começou? Ou até piores, com o humor azedado pelo tempo perdido?
Pensando bem, talvez o “normal” não fosse a nossa melhor versão. 

Outro trecho do texto que citei fala que foi necessário um vírus para nos reaproximarmos de Deus, para percebermos que o individualismo não resolve nada, que só devemos comprar o necessário. Pois bem. Meia hora – meia hora! – depois que o comércio reabriu, longas filas se formaram, para compras ou pagamento de contas. Muitas sem um distanciamento mínimo entre as pessoas, que nem máscara usavam. Não vou entrar no mérito de se quem correu desesperado para as lojas realmente precisava de algum item indispensável de sobrevivência ou se foi só uma desculpa para dar uma escapada do isolamento. O que eu me pergunto é se alguma das muitas lições impostas na marra foi aprendida nesse meio-tempo. Tenho sérias dúvidas.

Diz uma das minhas canções favoritas que “viver pra ser melhor também é um jeito de levar a vida”. Que tal tentarmos? Talvez assim possamos dizer que essa pandemia teve algo de positivo.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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