Aos que odeiam o mundo se odiando

Por: Felipe Sandrin | 30/04/2020 07:54:02

A falta de fé no mundo e nas pessoas não é um elemento intelectual. Duvidar da bondade humana, por quê? Sim, nas últimas três décadas perdemos alguns freios diante do planeta, mas essa falta reflete um objeto do nosso poder ou de nossa fragilidade? Observando-nos agora, seres dominantes e supremos, claro, nem conseguimos imaginar certas épocas em que resfriados nos matavam e a comida era um item escasso a ser conquistado.

Nas cartas de assassinos é comum encontrarmos esse elemento que falsifica o conhecimento de si como sendo o conhecimento de saber-se mau e indigno: “Faço aqui a justiça. Destruo essa raça tão deplorável”. E assim seguem os discursos daqueles que cometem atos horrendos como invadir escolas atirando. De onde vem essa falta de fé no ser? Quando foi que a esses foi incumbida a missão de juízes supremos da humanidade?

Percebo hoje claramente que a falta de fé nos homens é simplesmente a falta de fé em si. Jamais um humano de elevada bondade conseguirá ver o mundo como sendo um campo de lodo. Jamais olhos internamente limpos vão deixar de ver com clareza o mundo limpo que existe no exterior.

É claro que podemos ser extremamente cruéis, é claro também que seremos. Conhecemos o sofrimento, logo, conhecemos o que causa esse sofrimento. Mas como poderíamos conhecer exatamente as ferramentas da libertação desse sofrer se nossa ancestralidade é tão presente a nos lembrar sobre como o próprio ambiente pode ser cruel.

O que é essa maldade humana comparada a um vulcão em total fúria? O que é a mesquinhez humana diante de uma onda que em minutos varre uma população a dizimando? O que é a crueldade humana se comparada aos dentes afiados de um tigre a rasgar a pele dos garotos de uma tribo? Perceba: já fomos reféns de um mundo animalesco e cruel, corre o medo em nossas veias, um pavor que se oculta na escuridão da noite e no barulho dos galhos que quebram ao vento.

O medo emana grande parte da maldade, mas não somos escravos desse mal, apenas do medo. A falta de fé para com os outros é o olhar deturpado para si. Conhecer-se é por fim o maior dos conhecimentos para tudo e todos que julgamos.

Há o animal ali, sim, um animal ao qual recorríamos para fins de sobrevivência. Um animal com fome e disposto a devorar tudo. Esse animal que tentamos enjaular é, por fim, o mesmo que nos deixa acorrentados. Falamos das falhas humanas, mas quase sempre nos esquecemos de processar as nossas próprias. Assim nasce esse mundo horrendo onde alguns se julgam juízes competentes sem perceberem ser apenas o arquétipo do mais infeliz dos seres.

Somos falhos, medrosos e ainda muito inexperientes. E se hoje temos esse tempo para o julgamento é devido aos tantos outros que lutaram e morreram a fim de nos entregarem essa vida tão mais fácil e cheia de futuro.

Respeite os ancestrais, respeite aqueles que construíram e lhe entregaram esse mundo fácil no qual você só precisa ir até a geladeira. Pessoas formidáveis lhe deram a oportunidade de hoje você se permitir ficar sentado julgando o mundo à sua volta.

Não foi o mal que lhe entregou este mundo, mas é o mal que lhe impede de olhar para dentro e perceber que a vida se conserta e exalta de dentro para fora. Nunca o contrário.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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