Sobre gente que já nasce velha

Por: Felipe Sandrin | 20/11/2015 00:00:00

Nesta semana, assistia a um monólogo do brilhante historiador gaúcho Leandro Karnal e, entre tudo de interessante que ele sempre tem a dizer, uma parte em específico chamou a minha atenção: 

“Quanto mais eu envelheço, mais eu tenho medo; quanto mais eu tenho medo, mais eu tenho consciência do mundo. Enquanto eu, velho, demorava a entrar numa piscina de profundidade desconhecida, meu sobrinho, de dezoito anos, se atirou sem pensar duas vezes. A consciência nos torna covardes. Hoje, eu jamais  viajo sem um hotel reservado. Um jovem nunca sai com um guarda-chuva. Já eu, levo óculos extra, casacos, remédios e, quanto mais eu envelheço, mais coisas carrego ao sair de casa. O que significa isso? Eu percebo que a vida tem riscos. Ou seja: quanto menos eu soubesse dos riscos do mundo, melhor eu viveria”.

E agora, o principal: “O que fazer com o fato de que eu sei que, enquanto os outros gritam, no dia 31 de dezembro: ‘Feliz ano novo’, eu digo: ‘Vai ser um ano igual a todos, só que ficarei mais velho e um ano mais próximo da morte’. Como dizer isso sem estragar a festa dos outros? Enquanto eles cantam ‘este ano, quero paz no meu coração, quem quiser ser um amigo, que me dê a mão’, eu penso que cada vez terei menos amigos, porque eles estão morrendo ou se afastando. A ignorância é uma benção”.

Tenho um amigo que sempre diz que sou uma alma velha, pois somente uma alma velha poderia escrever do jeito que escrevo. Detalhe: esse amigo já passou dos 70 anos.

Talvez eu esteja finalmente começando a compreender por que detesto aniversários a ponto de esconder o meu e me sentir realmente estranho diante de qualquer um que me parabenize. Natal? Ano-novo? Queria poder fingir que sinto algo. Até já tentei buscar isso, mas a verdade é que não sinto absolutamente nada de diferente. Isso me gerava inquietação e certo constrangimento, mas, diante de textos de Skakespeare e de outros tantos gênios, encontro uma zona de conforto para o que até então era desconforto. Hoje, estou percebendo que não se trata de tristeza. Eu apenas acordei antes, nasci velho e perceptivo – não ao nível magnífico do personagem Hamlet, mas ao nível do Felipe Sandrin, velho.

Ninguém quer olhar-se no verdadeiro espelho, pois lá habita o rosto da Medusa. Quando encaramos a verdade do que somos, petrificamos, ficamos para sempre de frente para aquele espelho, acontece o despertar maldito. Porém, vivos, ano após ano, a imagem embaçada começa a recuperar os movimentos, até que um dia percebemos que já não tememos como ontem e amanhã, temeremos menos. O que ocorre dali por diante é incrível e revigorante, fazendo-nos sentir vivos todos os dias. Só por isso já vale o desprezo às datas comemorativas, pois sinto viver todos os dias, logo, eu não preciso dos específicos.

Melancólico? Sim. Aparentemente triste? Para outros, talvez. Porém, não se pode fugir da verdade indubitável que é viver. Eu não mais temo a solidão, aliás, eu me completo nela e, por precisar cada vez menos de outros, mais me sinto bem na presença daqueles dos quais tenho certeza de que quero estar perto. Não desprezo mais companhias, pois eu não aceito mais qualquer pessoa próxima a mim. Não preciso agradar ninguém que eu não queira e, a cada ano, melhoro meu sono e meu humor irônico. 

Sinto tornar-me senhor do meu tempo, eu não cultivo a frase: “um dia, você pode precisar daquela pessoa”, pois não venderei sorrisos por interesse futuro. Enquanto qualquer um ao longe reflete se eu sou triste, dentro de mim, reverberam risos, pois vejo a vida como comédia e, no meu palco, o espetáculo ocorre todos os dias.

Sim, eu já me sinto velho aos 29 anos, mas, parafraseando o bobo da corte, eu digo: melhor ficar sábio antes de ser velho, do que velho sem ser sábio.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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