Falta de bom senso

Por: Greice Scotton Locatelli | 05/08/2020 08:03:38

Bom senso tem sido uma palavra muito usada desde que a pandemia do novo Coronavírus começou. Entretanto, a recomendação para que pessoas, empresários e entidades se comportem dessa forma nem sempre é seguida.

Quando a mobilização começou, um dos primeiros pedidos de bom senso foi para que as pessoas não estocassem comida nem corressem para comprar todos os estoques de álcool gel. Foram poucos os que deram ouvidos aos apelos: os consumidores não apenas formaram aglomerações gigantescas em supermercados como nas intermináveis filas se viam carrinhos lotados de itens em grande quantidade, como papel higiênico. Bom senso foi o que menos se viu.

Quando o prefeito de Bento Gonçalves, Guilherme Pasin, suspendeu aulas na rede municipal de ensino, pediu bom senso aos empresários para que pais que comprovassem não ter com quem deixar os filhos fossem liberados de suas funções. Você, leitor, não imagina a quantidade de relatos que recebemos desde então, tanto de trabalhadores cujos patrões nem sequer cogitaram a possibilidade quanto de empregadores falando sobre colaboradores que fizeram de tudo para burlar a recomendação, mesmo tendo plenas condições de deixar os filhos sob cuidados de alguém. Onde estava o bom senso de ambas as partes?

Quando foi anunciada a volta gradual das atividades do comércio, foi pedido bom senso para a população, para que evitassem aglomerações e corrida às lojas e para que usassem máscaras. Na mesma tarde, imagens de pessoas aglomeradas no centro da cidade, de filas nas portas das lojas ou nas agências bancárias sem o distanciamento mínimo e muita – muita – gente sem máscara provaram que se tinha algo que não estava presente era o tal bom senso.

Quando o governo federal anunciou o auxílio emergencial de R$ 600 e R$ 1,2 mil para famílias que ganhavam até 3 salários mínimos, microempreendedores, autônomos sem carteira assinada e mães solteiras, foi pedido bom senso para que as pessoas prestassem atenção nos requisitos antes de tentarem se inscrever. Mas adivinhe: muita gente que não se enquadrava correu para baixar o aplicativo mesmo sabendo que não teria direito e, em poucas horas, o sistema estava praticamente em colapso. Resultado: quem realmente precisava porque estava passando fome acabou ficando sem respostas.

Quando as lojas reabriram e as indústrias voltaram, o apelo era o mesmo: saia somente em caso de necessidade, usando máscara. Esperava-se um mínimo de bom senso, já que a ordem era clara: nada de voltar à normalidade. Que nada! Os parques lotaram, teve gente fazendo janta, festa, almoço de família, indo tomar um chimarrão na praça. Tudo, menos o tal do bom senso.

Em se tratando de redes sociais, bom senso é, definitivamente, algo que não se vê. Especialmente entre os adeptos do extremismo que pregam de forma veemente que ou a doença não existe, é uma invenção política e da mídia, ou superdimensionam as preocupações. Enquanto isso, ofendem e ameaçam as autoridades que repassam as informações e os profissionais que as repercutem. É exaustivo e frustrante.

Os casos de pacientes contaminados aumentam na mesma proporção que os relatos de pessoas que deveriam estar em isolamento e não cumprem. É uma falta de respeito tão irritante quanto a falta de bom senso da maioria.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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