Sua mãe não precisa entendê-lo

Por: Felipe Sandrin | 05/08/2020 08:08:32

“Minha mãe não me entende”, murmurou o garotinho de 20 anos. Como assim? Quer dizer que essa mulher a qual largou sonhos para criar você, essa mulher que abdicou de parte da vida para lhe entregar amor e conhecimento, essa mulher que faria tudo de novo por você... ela agora precisa “entendê-lo”. Preste atenção em uma coisa: é você quem precisa entender sua mãe. É você que no auge de toda condição para o conhecimento deve usar desse privilégio para entender a mulher que lhe forneceu tamanha sorte.

Em épocas nas quais homens e mulheres se portam como garotinhos mimados e cheios de traumas fica fácil notarmos que a ingratidão é muito mais nociva do que qualquer desculpa para a carência. Ah é, não ganhou colinho da mamãe? Por isso virou esse serzinho amargo e fofoqueiro? Quer dizer então que foi a falta de carinho que lhe tornou esse ser mesquinho e cheio de complexos?
Preste atenção: pare de implorar por atenção, pare de querer mostrar o quanto você chegou longe sem receber quase nada. Olhe para sua mãe e a entenda você, entenda que, sim, há uma limitação nela para barganhar com esse mundo de conexões, compartilhamentos e curtidas; há uma dificuldade para distinguir vídeos falsos e verdadeiros, há inclusive uma dificuldade para entender que figurinhas de “bom dia” no Whats são um saco. Mas essa mulher que o criou e preparou para o mundo, não é ela quem precisa entendê-lo: é você que precisa fazê-lo.
A mãe vai além de dar a vida, ela dá o símbolo: só há um filho porque há essa mãe. Sem ela somos mais do que órfãos, deixamos de ser filhos. Olhe para sua mãe com olhar de filho, sem pena, pois ela certamente é muito mais forte do que você. Contemple-a em admiração, e pode ser uma admiração silenciosa, mães são seres tão divinamente escolhidos que podem sentir a admiração e carinho sem que estes precisem sequer de palavras que os anunciem.

Ame-a, em silêncio que seja. Agradeça-a, apenas com gestos se preferir. Mas não se negue a verdade de que a vida em sua ordem natural é vastamente implacável e de que o frasquinho de perfume esvazia um pouco a cada ano.

Ali está ela, a única que lhe concede a propriedade de ser filho. O símbolo máximo da abdicação silenciosa. Toda sua pele é músculos, carne e coração. Todo olhar inocente e toda sabedoria para perceber a maldade. Sim, sua mãe é a dualidade máxima do ser.

Ela não precisa entendê-lo, ela o fez... e se há algo que ela conhece profundamente é esse seu “Eu” que talvez nem você perceba. Agora, faça um favor por si, antes que o tempo passe tão rápido que você não possa perceber: entenda-a como ela o entende. Entregue a ela um pouco daquilo que ela tanto entregou e você nem lembra.
Sim, é sua mãe. Só há um você porque há Ela. E essa mulher não precisa tentar entendê-lo, quem precisa disso é você. Comece entendendo o seguinte: quem lhe deu amor quando você nem sabia existir é quem merece desfrutar da sua melhor versão.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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