Não sabemos o futuro, mas o mundo todo confia cegamente nele

Por: Felipe Sandrin | 19/01/2017 00:00:00

Até o ano de 1700, cerca de 700 milhões de pessoas habitavam o planeta terra, em 1800 esse número passou para 950 milhões, já em 1900 o salto foi para cerca de 1 bilhão e 600 milhões de humanos. Façam os cálculos e se assustem com o salto para 7 bilhões já em 2017. Crescimento exponencial. Basicamente funciona assim: se você leva 100 anos para encher um frasco com 1 bilhão de bactérias, após isso, levará menos de um segundo para você chegar a 2 bilhões de bactérias.
Ao se depararem com o crescimento estrondoso da raça humana no último século, muitas pessoas logo correlacionam isso a escassez de recursos. O petróleo irá acabar, a água será artigo de luxo, vai faltar comida. Lembram-se dessas frases? Pois é. Bem, ao que tudo indica não será a falta de recursos que acabará com a raça humana, bem verdade os recursos também crescem abundantemente década após década. A revolução científica aliou política e ciência. Constantemente os recursos se renovam, gerando ainda mais investimento para a própria ciência. 
Claro que estou separando as coisas aqui, nossas constantes evoluções tecnológicas não significam, por exemplo, uma consciência ambiental que venha a salvar a natureza. Se somarmos hoje a massa de todos os animais selvagens – de elefantes a porcos-espinho – teremos menos de 100 milhões de toneladas de peso. Para você ter uma ideia, a massa dos animais domesticados, como vacas, ovelhas, porcos e galinhas, seria maior do que 700 milhões de toneladas. A massa humana seria de 300 milhões de toneladas.
Aonde você quer chegar, Felipe? Na imprevisibilidade. Ditar os agentes do apocalipse é tão difícil quanto dizer que religião governará o futuro. Se pararmos para estudar, por exemplo, as três religiões monoteístas – o cristianismo, o islamismo e o judaísmo – notaremos que foram golpes de sorte que proliferaram e perpetuaram tais religiões até os dias atuais.
Sempre fomos aparentemente temerosos ao futuro, mas isso apenas na aparência, pois a grande jogada do desenvolvimento social humano do último século foi uma crença total no futuro. Tememos os desconhecidos dias que estão por vir, mas temos, acima de tudo, demasiada fé neles. Assim, construímos patrimônio, investimos o dinheiro, colocamos em bancos, programamos aposentadorias, seguros e fundos de pensão. Temos tanta fé no futuro que quase não vemos hoje no mundo pessoas vivendo o presente. A ideia de “proteger o futuro” investindo é nada menos do que uma fé cega de que certamente haverá futuro.
Quando falamos em medos, é importante entendermos que a evolução humana foi algo sem precedentes ao que conhecemos da história do planeta e das demais espécies. Imaginem que durante dois milhões de anos o ser humano ocupou a escala mais baixa da cadeia alimentar, éramos em grau de importância nada mais do que seriam as joaninhas hoje. A sobrevivência humana dependia do tutano, uma matéria que preenche a cavidade óssea. Imaginem que faz somente 100 mil anos que o homo sapiens saltou ao topo da cadeia alimentar. É fundamental entendermos isso para também entendermos a condição psicológica de nossa espécie. Somos um amontoado de medos, nossos ancestrais passaram dois milhões de anos se alimentando do que nenhum outro animal queria.
A história do homem que conhecemos na terra é muito mais curta do que parece, porém, a complexidade dos últimos 500 anos é de tal maneira reveladora que qualquer pessoa que realmente estude nossa história perceberá que todo caminho de fracassos e sucessos futuros é nada menos do que uma hipótese. 
Não há certezas quanto ao futuro, há, sim, resquícios de erros e algumas melhoras na condição de vida de nossa própria espécie, mas esses fragmentos não são suficientes para dizer quais caminhos iremos tomar e, mais que isso, quais caminhos deveríamos tomar.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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