Mundos diferentes

Por: Greice Scotton Locatelli | 22/05/2020 08:40:13

Clarissa é empresária do ramo de cosméticos. Do alto de seu luxuoso apartamento, com uma vista espetacular do centro de Bento Gonçalves, ela tem enfrentado desafios peculiares desde o início da pandemia. A rotina sempre agitada da família mudou radicalmente desde que os três filhos, de 3, 8 e 12 anos, tiveram aulas e uma infinidade de atividades extracurriculares suspensas (inglês, judô, natação, robótica e aulas de violão estão entre elas). As crianças têm à disposição tudo que você possa imaginar em termos de tecnologia e conforto, mesmo assim, nada parece ser suficiente para preencher o vazio existencial que ficou evidenciado após as recomendações de distanciamento social. A convivência com os filhos e com o marido, antes restrita a no máximo um ou dois dias por semana, revelou um abismo que separa a família emocionalmente: Clarissa se deu conta de que mal conhece os próprios filhos, já que praticamente desde o nascimento deles teve um pequeno exército de pessoas ao seu dispor para ajudá-la na função de criar o trio, e tem discutido com o marido, desacostumado a ficar em casa. 

No bairro Santa Marta, Cláudio vive uma rotina de pandemia bem diferente. Ele, que sempre se orgulhou por ter começado a trabalhar ainda criança, está desempregado pela primeira vez na vida, depois que as empresas para as quais prestava serviço de transporte de funcionários resolveram paralisar as atividades. Depois de algumas semanas, várias reabriram, mas em condições bem diferentes do habitual: com muitos colaboradores em home office, as empresas optaram por não mais terceirizar o transporte. Com um apartamento financiado por longos 30 anos, ele até tentou vender o carro da família para ter um fôlego por alguns meses nas finanças, mas nem aceitando um valor muito abaixo do mercado conseguiu fazer negócio. Na revenda, o proprietário informou que não está comprando novos carros porque a procura simplesmente não existe mais. Cláudio sente na pele os efeitos da pandemia, mas não acredita muito nesse tal de Coronavírus. Tanto que dia desses virou alvo de fofocas da vizinhança porque insiste em sair de casa mesmo sem ter necessidade e, de quebra, não utiliza máscara. 

Maria da Glória bem que tentou, mas até agora não conseguiu o Auxílio Emergencial divulgado pelo governo Mundos diferentes federal. Aos 27 anos, trabalhando como doméstica, ela tem contado as moedas – literalmente – para sobreviver junto com o filho, de 2. O marido morreu no ano passado, vítima de uma embolia pulmonar. Mariazinha, como é conhecida, sobrevive com uma cesta básica entregue mensalmente pela prefeitura. Ela bem que tentou aumentar a carga horária, mas muitas das famílias para as quais ela trabalhava também enfrentam problemas financeiros e optaram por suspender a faxina até a situação se estabilizar. Ironia do destino, Mariazinha estava economizando dinheiro para comprar um carro no final do ano, que permitiria que ela aceitasse mais trabalhos já que não dependeria de ônibus. Agora, ela não apenas gastou o pouco que tinha guardado como reduziu drasticamente as expectativas: saúde, leite e biscoitos para alimentar o filho são o suficiente na nova realidade dela. 

A pandemia tem afetado a saúde emocional de Lauro em cheio. Ele, que sofreu a vida toda com depressão e ansiedade, tem precisado lidar com as incertezas causadas pela mudança radical na rotina desde que a empresa em que trabalha, como vendedor, decidiu suspender seu contrato temporariamente. Desde então – e lá se vão quatro longas semanas – ele só sai de casa para ir ao supermercado. A situação ainda é contornável, financeiramente falando, mas o futuro incerto em relação ao emprego tem piorado os sintomas da depressão e, para piorar, impactado também no relacionamento. Lauro e a companheira, juntos há mais de 20 anos, têm discutido diariamente e a tensão parece aumentar a cada dia. Por sorte, ela trabalha como técnica em enfermagem e tem sido requisitada a cumprir jornadas de trabalho maiores desde que a pandemia começou. Não fosse isso, eles já teriam se separado e hoje estariam compartilhando a guarda dos filhos gêmeos, de 9 anos. 

Não importa a idade, a classe social ou as crenças: os reflexos da disseminação da COVID-19 impactam a todos. Quando isso vai passar? Não sabemos, apesar da torcida para que seja em breve. Cabe a cada um encontrar soluções para suas próprias dificuldades, lembrando sempre que a prevenção é tipo trabalho de formiguinha: cada um fazendo a sua parte, da melhor maneira possível, um dia de cada vez, sem perder a esperança de que isso também vai passar.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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