Para organizar a vida e os pensamentos

Por: Greice Scotton Locatelli | 06/05/2020 08:07:15

“Eu hoje joguei tanta coisa fora, vi o meu passado passar por mim. Cartas e fotografias, gente que foi embora. A casa fica bem melhor assim.” A música “Tendo a lua”, dos Paralamas do Sucesso, descreve bem algo que todos deveriam fazer de tempos em tempos: jogar certas coisas fora. 

Eu sempre fui uma pessoa bastante organizada. Mesmo quando a falta de tempo ou a simples preguiça de arrumar algo insistem em fazer parte da rotina, eu dou um jeito de manter tudo em ordem. Tenho aproveitado os finais de semana para deixar armários e prateleiras ainda mais enxutos – demorei para aprender que não precisamos de muito para viver e hoje considero libertador toda vez que consigo otimizar algum espaço de forma eficiente.

Aliás, poucas coisas são tão eficazes para organizar os pensamentos quanto organizar a casa, minha mãe sempre diz. 

Mas nem tudo são flores. Pelo menos comigo não funciona programar um dia. Tenho que acordar disposta para aquilo, caso contrário é só enrolação. Em compensação, quando batem os cinco minutos ninguém me segura [risos]. 

As roupas, por exemplo: por menos consumista que você seja, aposto que também tem no armário peças “esquecidas”, que já não servem mais ou que simplesmente não fazem mais parte do seu estilo. Eu criei um sistema para arranjar mais espaço que tem funcionado: de tempos em tempos, eu analiso as peças que não são mais usadas e separo em sacolas, que ficam na parte de baixo do armário.

Passadas algumas semanas, eu olho o que tem separado: se são peças das quais eu sequer senti falta, elas seguem para doação. Isso evita entulhar um monte de coisa e, de quebra, ajuda quem mais precisa. Desde que comecei a fazer isso, nenhuma peça voltou para o cabide, ou seja, eram realmente coisas que eu não usava mais. Ah, e vale também para calçados e utensílios em geral. Às vezes a gente compra tanta coisa desnecessária e só se dá conta com o passar do tempo. 

Dia desses eu “ataquei” os armários do escritório lá de casa. Não fazia isso desde que nos mudamos para o apartamento, há uns cinco anos. Embora estivesse tudo no devido lugar, etiquetado, fiz questão de abrir caixas e remexer no conteúdo delas. Encontrei fotos antigas, recordações e cartas de gente que já foi embora (se você tem menos de 20 anos de idade talvez não saiba, mas antigamente cartas eram uma das formas mais bacanas de comunicação, apesar de demorarem uma eternidade para chegar e de darem um trabalho danado para escrever). Confesso que me diverti lendo, depois de tantos anos, algumas delas. Mas, ao mesmo tempo, percebi o quanto é desnecessário acumular tanto papel antigo. Separei as mais significativas para que seguissem tendo um lugar no futuro e as demais descartei. Certos pesos não precisam ser carregados por tanto tempo. 

Para mim, a organização física de objetos funciona como uma ótima forma de organizar também os pensamentos, como eu já citei, sem contar que altera (para melhor) a energia da casa. Faz bem à alma e para a saúde (exceto se você tem rinite alérgica, aí aconselho a usar alguma proteção para não passar horas espirrando, especialmente em se tratando de papéis guardados há muito tempo – experiência própria). 

Em tempos de isolamento social e saúde mental comprometida, dar uma sacudida nas coisas pode ser uma boa saída para minimizar os impactos desse nosso novo normal, tão incerto. Para mim, é terapêutico.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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