Bento Gonçalves precisa urgentemente resgatar laços

Por: Felipe Sandrin | 26/01/2017 00:00:00

Muito dinheiro ainda é gerado aqui, mas pouco é reinvestido na cidade. E quando falo em reinvestir não me refiro a empresários colocando ainda mais dinheiro em seus próprios negócios, o que está faltando em Bento é amor pela cidade.
Um cão faz suas necessidades e o dono não recolhe, pessoas que veem a cena nada fazem. No domingo, um garotinho brinca com o pai na movimentada praça da avenida Planalto, ele fica com vontade de ir ao banheiro e o pai precisa levá-lo para casa, pois a praça mais movimentada da cidade não tem banheiros. No mesmo local, sujeira para todo lado, as pessoas simplesmente não se importam em deixar seu lixo em qualquer lugar.
Há alguns anos, peixes foram colocados em uma fonte da cidade, poucas horas depois foram envenenados. A prefeitura investe em algum novo adorno e, alguns dias depois, ou desaparece, ou aparece quebrado ou pichado. Não há amor pela cidade, não há vínculos. Você sai às 22 horas e a cidade está morta. No domingo à noite, enquanto diversos lugares veem o público ir às ruas, o bento-gonçalvense se tranca em casa. 
Deixei de convidar amigos para conhecerem Bento, pois tenho vergonha de trazê-los aqui. Não há uma rua na cidade que não tenha buracos. Fora dela, seja nas imediações do Vale dos Vinhedos ou indo a São Pedro, as áreas mais turísticas da região são nada menos do que um amontoado de trincheiras onde carros ziguezagueiam contrastando um lindo cenário com uma calamidade pública que não permite vencer patéticos buracos.
Pessoas mal encaradas dominam a noite, o centro, a Cidade Alta e qualquer praça. Nada nos pertence. Uma pousada na Cidade Alta recomenda que os hóspedes evitem sair após as 18h. Noto que os estabelecimentos possuem guarda particular. O cidadão está abandonado, acuado e gastando dinheiro que poderia ser revertido para tornar a cidade ao menos mais convidativa.
A economia – para alguns – vai bem. Só neste ano, uns quatro conhecidos adquiriram apartamentos em Miami e outros tantos deram entrada em um imóvel novo em praias de Santa Catarina. A regra do empresário é: ganhe dinheiro aqui, mas gaste fora daqui. E eles próprios falam isso sem constrangimento.
Prazo de validade instituído, não há cidade que aguente tanta gente desapegando e falando em ir embora. Está bom para quem? Para quem sempre morou aqui, para quem fica fora, no máximo, 20 dias de férias. Agora, para qualquer outra pessoa que já residiu em uma cidade com qualidade de vida – seja nossa vizinha Gramado – fica quase impossível viver aqui.
Ponto importante: pessoas que visitam a cidade para ficar poucos dias se apaixonam. Realmente, Bento Gonçalves tem o que muitos lugares não têm. À primeira vista, tais belezas particulares parecem compensar qualquer outro problema. Mas essa ideia dura pouco, dura até o contato com a cidade e as pessoas ficar mais íntimo. A frase que mais escuto: se eu pudesse, eu iria embora.
Faz tempo que eu bato nessa tecla.  A cidade tem potencial, as pessoas daqui trabalham como em poucos lugares. Empresas crescem e sempre há novos empreendedores chegando dispostos a investir. Porém, o vínculo das pessoas com a cidade está morrendo. As pessoas testemunham coisas erradas, mas nem se atrevem mais a reivindicar, o problema deixou de ser nosso.
A situação está tão crítica quanto há dez anos. Se não dermos um jeito de trazer a comunidade de volta para a cidade, seguiremos sendo ótimos recebendo turistas, mas péssimos cuidando de quem realmente é daqui. 

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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