O lado ruim da prevenção

Por: Greice Scotton Locatelli | 06/12/2020 10:16:39

Você já deve ter ouvido muitas vezes aquele ditado “É melhor prevenir do que remediar”. Claro que é! Mas então, como eu ouso afirmar que existe um lado ruim nisso? Infelizmente existe sim: o lado ruim da prevenção é que a gente não consegue medir o que foi possível evitar.

Certa vez, durante uma entrevista com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), eu questionei um dos agentes sobre como era medida a efetividade de ações de prevenção. Eu queria saber como eles estimavam que as abordagens para orientações sobre a obrigatoriedade do uso de cinto de segurança e as fiscalizações com bafômetro realmente estavam funcionando para preservar vidas. A resposta foi simples e complexa ao mesmo tempo: se não acontecerem acidentes graves é sinal de que os nossos esforços estão valendo a pena. 

Você entende o quão subjetivo isso pode ser? O quanto é difícil convencer as pessoas de que algo está surtindo efeito sem ter números e argumentos? 
A pandemia do novo Coronavírus que preocupa sem exceção todos os países do mundo tem sido desafiadora também nesse sentido. Especificamente em Bento Gonçalves, as ações começaram cedo, ainda nas semanas em que ocorreram as primeiras confirmações da doença no Brasil. 

Desde então, uma série de decretos, orientações e campanhas foram feitas para tentar minimizar a disseminação do vírus em nível local. Passados mais de três meses do início dessa mobilização, há quem diga que foi tudo exagero, que nem foi tão grave assim, que o número de óbitos é baixo quando comparado ao total de habitantes da cidade. 

Pergunto, sem expectativa de resposta concreta: e se não tivéssemos nos precavido, o cenário seria esse hoje? Se não tivéssemos, a duras penas, ficado em casa (o tal distanciamento social), se não tivéssemos fechado lojas e empresas por um período, se não estivéssemos usando máscaras ou tomando cuidados redobrados com higiene, o cenário seria esse hoje? Sabe quem tem essa resposta? Ninguém! Nem aquele que defende com unhas e dentes que a pandemia é uma manobra política e que todas as informações são exageradas ou mentirosas nem aquele que está tão preocupado em ser contaminado que literalmente paralisou a própria vida. 

É justamente por isso que a prevenção tem um lado ruim. Já imaginou se pudéssemos fazer uma campanha de trânsito comprovando que aquela fiscalização fez com que, sei lá, 20 pessoas continuassem vivas? Ou que se a população não tivesse se cuidado durante a pandemia mais de 500 bento-gonçalvenses teriam morrido em decorrência das complicações da doença (por exemplo)? Seria bem mais fácil convencer as pessoas de que a prevenção é necessária, sim. 

Não sei se algum dia a evolução da tecnologia permitirá essa precisão, é algo que só o tempo dirá. Como por enquanto não há como medir com exatidão o que foi possível evitar, seja em que área for, resta seguirmos tentando, em um “trabalho de formiguinha”. Um dia de cada vez, uma pessoa de cada vez, uma mudança de comportamento de cada vez. Começando por nós mesmos, servindo de exemplo positivo para que outras pessoas também se inspirem a se tornarem seres humanos melhores.

Ainda imperfeitos, mas melhores. “Viver para ser melhor também é um jeito de levar a vida”, diz uma canção.
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 772
08/07/2020 00:05:53
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA