Hábito

Por: Jeferson Dytz Marin | 06/12/2020 15:46:19

Vivemos a era do hiperindividualismo. E a pandemia deixou ainda mais evidente a concentração de renda. O Brasil, aliás, é o segundo país do mundo com maior concentração de renda, onde 1% concentram 28,3% da riqueza, ficando apenas atrás do Catar, onde a concentração é de 29%. Vale ressaltar ainda, que, no Brasil, os 10% mais ricos abarcam 41,9% da renda total.

A ilação evidente desse quadro é de que é preciso estabelecer uma base de apoio aos mais vulneráveis, que foram potencializados pela pandemia, por uma questão óbvia. Quem tinha uma situação econômica “suficiente”, uma vez vitimado pelas privações de renda, que são uma decorrência natural do período de pandemia, tornou-se também vulnerável.

E essa “base de apoio” deve, sim, constituir o espectro de políticas públicas do Estado, mas, principalmente, da iniciativa privada, com acento nos super-ricos.

E veja que essa proposta se põe numa plataforma do Estado Liberal, sem ruptura. Veja-se: 

a) Bill Gates, um dos homens mais ricos do mundo, com uma fortuna avaliada em mais de 80 bilhões de dólares, graças à sua visionária aposta no software para computadores pessoais na Microsoft. É também um dos maiores filantropos do planeta. A Fundação Bill & Melinda Gates destina 5 bilhões de dólares por ano à luta contra doenças como a malária, a pólio e a Aids, além de estimular a agricultura em países pobres e outras iniciativas para o desenvolvimento;

b) Warren Buffett e Bill Gates arquitetam uma campanha que propõe a milionários doar mais da metade dos seus bens para a caridade. Segundo a revista “Time”, até junho, 137 afortunados já haviam aderido à proposta – alguns deles pretendem doar 99% do patrimônio antes de morrer;

c) As políticas que alguns países escandinavos (notadamente Noruega, Finlândia e Suécia) têm adotado, chamadas de “flexisegurança”. Uma economia flexível, que, na hipótese de demissão, “acolha” o indivíduo, a fim de que ele não experimente uma sensação de “abandono” do Estado e da própria Sociedade, o que provoca, por exemplo, a migração de adolescentes para o “paternalismo do tráfico”. Veja-se que não se trata de programas postos meramente no âmbito da assistência social, como foi, em seu embrião, o fome zero, mas que pensam constantemente na reinserção do indivíduo no mercado de trabalho;

d) Investimentos em educação e o aproveitamento da tecnologia como “instrumental” para o avanço das práticas pedagógicas, mas sem esquecer que é o professor o centro do processo educacional. O sujeito que adquire um tablet, smartphone ou um computador portátil tem acesso a muita “informação”, contudo, “informação” não é “conhecimento”.  E qualquer néscio tem acesso à informação. Basta clicar. Para isso, o professor é fundamental, a fim de implementar o pensar reflexivo, a construção crítica e, principalmente, a capacidade de criar. Sem poder criativo não há ciência e nem evolução humana, inclusive a tecnológica.
Bem, se não forem adotadas essas políticas (rede de apoio estatal e privada e fortes investimentos em educação), caminhamos para uma catástrofe:

a) A concentração de renda tende a aumentar, consequentemente, o contingente de pobres e, por fim, a violência;

b) Outras pandemias virão! Existem 1.700.000 vírus detectados em animais, desses 1.700 são coronavírus. 

Hoje, somos igualmente sujeitos na pandemia, mas desiguais no confinamento. O Relatório “Fronteiras 2016 sobre questões emergentes de preocupação ambiental”, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, apontou que cerca de 60% das doenças infecciosas em humanos são zoonoses e que, em média, a cada quatro meses surge uma nova infecção em humanos. A destruição do ambiente natural reduz os habitats de espécies isoladas e as colocam em contato com humanos, propiciando novos tipos de infecções. O aumento populacional de pessoas e de rebanhos animais confinados é outro fator que proporciona condições favoráveis à disseminação de novos vírus. Sem contar a situação degradante da população vulnerável, que gera avanço da pandemia. Assim, é urgente implementar políticas que previnam novas catástrofes sanitárias.

Mas por qual razão, apesar das evidências científicas, as correntes negacionistas ainda são representativas? A questão é explicada pela neurociência. As pessoas tendem a ser impactadas por fatos que geram efeito imediato. O que é denominado “eurística da disponibilidade” ocorre quando a informação não está disponível, de forma imediata e não é assimilada pelo cérebro. Assim, a informação diluída no tempo acaba por não impactar. Os fatos que têm efeito residual e são projetados no tempo não geram impacto avassalador. Por isso que o coronavírus só desperta a consciência de cuidado em alguns quando pessoas próximas se contaminam e sofrem e quando as mortes alcançam a região onde o sujeito reside.

Outro exemplo poder ser representado nos grandes acidentes aéreos, que gera o medo de avião, belamente cantado por Belchior. Quando ocorreu o acidente da TAM em Congonhas, eu perdi um grande amigo, padrinho do meu filho. Fiquei, naturalmente, por um período, impactado e com receio de apanhar aviões. Contudo, o racional, o argumento científico, a visão de futuro, o efeito do córtex cerebral pré-frontal, diz que, estatisticamente, ir de carro para SP é muito mais inseguro do que apanhar uma aeronave.

É preciso implementar uma transformação cultural. Aristóteles afirma que virtude é hábito. Só mudamos se alterarmos nossas práticas. Assim é com o meio ambiente, assim é com a corrupção etc. O sujeito que é “sensível” à honestidade, se sucumbir à influência de um ambiente corrupto, depois, passa a não entender mais aquelas práticas como atos de desonestidade. No filme “Má Educação”, aliás, que tem como protagonista Hugh Jackman e conta a história do maior escândalo de corrupção de uma escola pública norte americana, Frank Tassone, o superintendente da Roslyn, escola de Long Island, confessa ter sucumbido e diz, “paguei um café com o cartão corporativo e ninguém percebeu, depois, um jantar e, aí, não parei mais”. O hábito, o hábito! Para o bem e para o mal.

A pandemia trará novos hábitos. E, espera-se, voltados para a ideia de um futuro planejado, distante da “eurística a disponibilidade”. E, nesse, que é um dos maiores períodos de exceção da história, para que se tenha esperança de que, logo, tudo acabe, nada melhor do que lembrar o atemporal Camus, “no meio do inverno aprenderam enfim que havia, em cada um, um verão invencível”.
 


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Jeferson Dytz Marin

Jeferson Dytz Marin

 



Professor e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Direito (Mestrado e Doutorado) da UCS. Doutor e Mestre em Direito. Líder do Grupo de Pesquisa (CNPq) Alfajus, com esforço de cooperação com a Pace Law School – Nova Iorque-EUA e Universitàdi Padova-ITA. Professor convidado em cursos de Doutorado, MBAs e pós-graduação lato sensu em diversas instituições, dentre as quais a Universidade de Coimbra-Portugal, Nova Lisboa-Portugal, FGV-RJ, ESMAFE - Escola da Magistratura Federal, UFSM e IEM – Instituto de Estudos Municipais. Autor de mais de dez livros e mais de 60 artigos jurídicos publicados no Brasil e no Exterior. Diretor da Marin Advogados Associados.



Contato: jeferson@marinadv.com.br.




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