Sem controle

Por: Greice Scotton Locatelli | 19/06/2020 10:00:01

A gente se ilude achando que pode controlar as coisas, mas a verdade é que não temos controle algum sobre absolutamente nada. Em tempos de pandemia, isso se tornou ainda mais evidente, infelizmente. Agora nem mais controle sobre o que antes era “normal” podemos ter. Uma decisão, um “canetaço”, uma mudança na estatística e tudo que foi arduamente colocado de volta nos eixos acaba virando balbúrdia de novo. É um tal de abre, fecha, autoriza, desautoriza, pode, não pode mais. Isso em questão de dias, quando não de horas. Haja paciência!

Eu sei que há um interesse nobre e importantíssimo por trás disso tudo: a preservação da vida. Nada deveria ser mais importante do que isso, mas o cenário que estamos vivendo é tão novo e imprevisível que outras preocupações acabam se sobrepondo, especialmente em função do longo tempo de duração da pandemia. O que era para ser uma “quarentena” está entrando no terceiro mês de restrições, sem certeza alguma sobre quando vai realmente acabar. Os mais pessimistas têm falado que algumas restrições entrarão 2021 adentro. 

Quando tudo parecia estar sendo retomado, uma mudança nos critérios do chamado distanciamento controlado fez quatro regiões gaúchas regredirem em relação às restrições, entre os quais a Serra Gaúcha. Obviamente que houve manifestações contrárias – algumas até bem enfáticas – de prefeitos, entidades e até da população em geral. Quem tem razão nessa história? A equipe do Estado, que prevê um desastre em termos de estrutura de saúde nas próximas semanas ou os prefeitos e empresários, que acreditam que voltar a fechar tudo não é o caminho? Quem está certo: quem defende que a economia não pode parar ou a turma do “fique em casa” a qualquer custo? E quem garante que essa resposta existe? Quem sabe o que o dia de amanhã nos reserva em um cenário tão caótico quanto esse que estamos vivendo? 

De novo: concordo que a preservação da vida deva ser nossa prioridade, mas em longo prazo, como faremos? Com milhares de empregos perdidos e de empresas falidas? E mais, como estará a nossa saúde mental, com uma mudança tão abrupta de rotina, que tem demorado tanto para passar? Quantos de nós estão seriamente deprimidos? Quantos entrarão para esta estatística muito em breve se essa pandemia não der uma trégua logo? Estará o ano de 2020 perdido por completo, em todos os sentidos? 

Temos dois lados bem importantes nesse contexto e talvez seja justamente esse um dos maiores empecilhos da convivência durante esse período tão desafiador: enquanto uns imploram para poderem continuar trabalhando, outros debocham através de atitudes, fingindo que está tudo bem, se aglomerando em locais de lazer, por exemplo. Quem se sacrifica demais paga por quem prefere fingir que não está acontecendo nada. Se realmente só quem precisasse sair estivesse fazendo isso, certamente nossas estatísticas seriam bem melhores a essa altura. Da mesma forma que se a rigidez dos decretos fosse fiscalizada na mesma proporção, muitas das ações de desrespeito seriam evitadas. 
Cada um sabe da sua realidade, mas os que demonstram não estar fazendo esforço algum se acumulam nas ruas: gente sem máscara (ou usando de forma incorreta), pacientes diagnosticados com a doença desrespeitando o isolamento, famílias inteiras indo a bancos e supermercados, pessoas tomando chimarrão na praça, compartilhando cuia, jovens se aglomerando em postos de gasolina para beber cerveja... os exemplos são muitos, infelizmente. 

Sim, eu sei que o ser humano não foi feito para viver isolado, sei que você não aguenta mais o tédio, sei que quer a sua antiga rotina de volta e que é desanimador fazer qualquer plano diante de tantas incertezas. Não é exclusividade sua, pelo contrário: é o sentimento da maioria. Mas também sei que, por ora, esse é o preço que todos nós temos que pagar, torcendo para que, em breve, tudo isso seja apenas uma lembrança ruim de tempos desafiadores. Acredite ou não, a pandemia está aí fazendo com que a gente tenha ainda menos controle sobre tudo.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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