O novo normal exige (muita) paciência

Por: Greice Scotton Locatelli | 07/03/2020 10:03:45

Confusão é uma palavra que tem feito parte da nossa rotina mais do que gostaríamos. Ok, estamos vivendo um momento inédito nas gerações mais recentes, mas isso justifica tamanha instabilidade? É um tal de abre/não abre, funciona/não pode funcionar, permitido/proibido que fica difícil organizar a vida. Isso vale desde as demandas mais simples do dia a dia até situações complicadas.

Suponhamos que você esteja fazendo uma reforma ou readequação dos espaços da sua casa e precise de algum tipo de material, desde aqueles para a obra propriamente dita (tinta, ferragens, ferramentas etc.) quanto para a etapa posterior, de organizar os objetos. Em tempos de pandemia, planejamento é ainda mais importante: de nada adianta você definir que tal reforma será feita em determinado período se não se programar e comprar tudo antes. Deixar para comprar de última hora vai trazer transtornos. Como saber se a loja vai estar aberta?

Aí na sua casa a rotina de compras é bem definida: você e seu marido sempre optam pelo final de semana, por ser mais tranquilo. Nesta semana tudo certo, vocês conseguem os itens que precisam. Na semana seguinte, é proibido entrar mais de um membro da família. No outro, começam a faltar alguns produtos. Como se programar desse jeito?

Adeptos da vida saudável, você e seus filhos têm o hábito de ir caminhar e andar de bicicleta aos finais de tarde e domingos. Tudo dentro das tais normas de higiene: todos de máscara, sem aglomeração, sem roda de amigos, sem chimarrão. De repente, porque alguns teimam em seguir desrespeitando qualquer regra relacionada à pandemia, praças e parques são fechados. Os bons pagam pelos ruins em todos os aspectos, definitivamente.

Há também os dilemas de quem se contaminou. Você é filho único e tem hipertensão. Ou seja, é do grupo de risco. Sua mãe, que reside em uma casa de repouso, é contaminada e o quadro se agrava rapidamente. Antes de saber do diagnóstico, é você quem a leva para o hospital, encaminha a baixa, conversa com os médicos. Tão logo o resultado chega, você também precisa ficar em isolamento só que domiciliar. Quem vai resolver a burocracia ou as demandas típicas de um paciente hospitalizado (roupas, fraldas geriátricas, medicamentos etc.) se você não pode ir?

E os transtornos não param por aí... Você trabalha em uma empresa do chamado grupo essencial (supermercado, farmácia ou que preste serviços de saúde, por exemplo) e depende do transporte público para se locomover. Desde o início da pandemia, os horários são adaptados quase que toda semana, com cancelamento temporário de linhas ou adequação dos itinerários. Vários dias você teve que pegar táxi ou chamar um carro de aplicativo porque simplesmente não tinha ônibus nos horários que você precisava. Ok, você teve condições financeiras – apesar do aperto que é fechar as contas todo mês –, mas e quem não tem? Como faz?

A maioria das pessoas defende que as escolas devem permanecer fechadas. A prefeitura pediu empatia e compreensão aos empresários, para que liberassem empregados que não tenham com quem deixar os filhos. Uma semana ok, duas semanas, ok, um mês, ok. Estamos entrando no quarto mês da pandemia, sem previsão de acabar. Mesmo empresas que tenham tido as tais empatia e compreensão podem não ter condições de manter isso em longo prazo. E quem não tem opção, como faz?

Quem é empresário e tem um estabelecimento considerado não essencial tem sofrido na mesma proporção: nesta semana funciona, semana que vem não se sabe. Enquanto isso tem que adequar folha de pagamento, banco de horas e resolver uma montanha de burocracia, afinal, é algo inédito, para o qual não há protocolos e regras.

Existe ainda a confusão entre as informações – também pudera, são tantas! – e o fato de o que vale de manhã nem sempre continuar valendo à tarde só traz ainda mais dúvidas. Mesmo nós, comunicadores, que acompanhamos o assunto em tempo real, muitas vezes ficamos sem entender algumas medidas e as implicações delas. Hoje pode, amanhã não pode mais, depois de amanhã ninguém sabe. Dizem que esse é o tal do “novo normal”, mas pode chamar de exercício de paciência.


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 772
08/07/2020 00:05:53
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA