A tragédia de outros e a nossa

Por: Felipe Sandrin | 13/11/2015 00:00:00

Você se depara com uma notícia intitulada “Sobe para 45 o número de mortos em boate”. Na hora, lembro-me da tragédia da Kiss. Então, quando decido ler a notícia, me deparo com a afirmação “O primeiro ministro não resistiu à pressão e renunciou”, volto a relembrar do país miserável onde vivo.

Há como não desanimar vivendo neste Brasil? Aliás, só não desanima quem não tem coração, quem não sabe se por no lugar de outros, quem já enlouqueceu e a essa doença dá o nome de otimismo. Tudo bem ser otimista às vezes, mas sempre? Nem pensar, ninguém que ainda pense pode ser otimista sempre – pelo menos, não vivendo nesse lugar.

Um grupo de 45 mortos e a capital da Romênia incendiou. Mais de 15 mil jovens foram às ruas de Bucareste. A população culpa a corrupção pela tragédia. Os três proprietários da discoteca estão presos por homicídio culposo e o político mais importante do país se retira do cargo. Enquanto isso, no Brasil, parentes de jovens mortos na boate foram processados pelos donos por estes se sentirem ofendidos com comentários daqueles que perderam seus filhos. 

Aqui foram 242 mortos, queimados vivos, intoxicados, empilhados em uma boate que não deveria estar sequer aberta. Uma casa noturna que funcionava na ilegalidade, regida por corrupção e compra de alvarás. Sinceramente, como os pais desses jovens conseguem conviver com isso? Não sei. Se me coloco nessa situação por alguns segundos, consigo apenas pensar em vingança.

“Violência gera violência”; mas que sociedade se constrói quando parte dela nada teme? Décadas de impunidade fazem surgir uma violência interna tão forte nas pessoas de bem que passamos a não achar ruim o Exército assumindo o poder, a ditadura reascendendo, o Bolsanaro ser presidente. É a soma dessas loucuras que está corrompendo as pessoas de bem para a violência, silenciosamente. 

Um dos grandes erros dos políticos é achar que vingança ainda passa longe deles. Acham que culparemos os nordestinos ou as classes A, B e C por muito tempo ainda. Acham que a população seguirá desarmada e que ter construído Brasília longe dos grandes centros foi algo que os blindou das revoltas populares. Mas esses dias estão chegando ao fim. Os dias em que a população apenas enterra o ente que foi vítima do marginal em regime semiaberto estão acabando.

Dói ver o que nos tornamos, mas dói ainda mais esquecer o que nos tornamos. Quando vemos outro país passar por algo semelhante ao que vivemos e como a sociedade de lá reage, as leis são cumpridas e os culpados são punidos, lembramos a abominável aceitação que nos consome.

Tornou-se tão comum o hediondo. Você lê que alguém foi morto por causa de uma bicicleta; que um jovem foi assassinado por um celular; que 242 vidas foram consumidas pela fumaça e, ainda assim, consegue deitar e dormir. Perdemos o juízo quando aprendemos a abafar as sensações indignantes da injustiça.

Perdemos a batalha do progresso quando pensamos que não pensar é a melhor forma de não se angustiar. Porém, quanto mais pensamos que podemos fugir da dor de outros, mais alimentamos uma sombria e camuflada violência, a qual surge em pequenas doses, seja no trânsito, com nossos filhos, em nosso trabalho, na hora de votarmos ou de falarmos sobre questões sociais.

Vivemos, hoje, na sociedade mais perigosa do mundo. Uma sociedade que interioriza seus medos e tenta silenciar sua indignação. E se você pensa que eu exagero, espere e verá o tempo, novamente, revelar que o calmante para as injustiças sempre acabou sendo a violência.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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