Sobre o amor a Bento Gonçalves

Por: Greice Scotton Locatelli | 02/03/2017 00:00:00

Quando editei o texto assinado pelo colunista do SERRANOSSA, Felipe Sandrin (publicado na última edição), tive certeza de que renderia muito “pano pra manga”. O assunto? Bento Gonçalves. O enfoque? A falta de amor pela cidade. 
“Um cão faz suas necessidades e o dono não recolhe, pessoas que veem a cena nada fazem. No domingo, um garotinho brinca com o pai na movimentada praça da avenida Planalto, ele fica com vontade de ir ao banheiro e o pai precisa levá-lo para casa, pois a praça mais movimentada da cidade não tem banheiros. No mesmo local, sujeira para todo lado, as pessoas simplesmente não se importam em deixar seu lixo em qualquer lugar. A prefeitura investe em algum novo adorno e, alguns dias depois, ou desaparece, ou aparece quebrado ou pichado. Não há amor pela cidade, não há vínculos. Você sai às 22 horas e a cidade está morta. No domingo à noite, o bento-gonçalvense se tranca em casa.... Pessoas mal encaradas dominam a noite, o centro, a Cidade Alta e qualquer praça. Nada nos pertence. Uma pousada na Cidade Alta recomenda que os hóspedes evitem sair após as 18h. Os estabelecimentos possuem guarda particular. O cidadão está abandonado, acuado e gastando dinheiro que poderia ser revertido para tornar a cidade ao menos mais convidativa... Se não dermos um jeito de trazer a comunidade de volta para a cidade, seguiremos sendo ótimos recebendo turistas, mas péssimos cuidando de quem realmente é daqui”, diz parte do texto.
Na fanpage do SERRANOSSA, o assunto bombou. Em poucas horas, foram mais de 26 mil visualizações e 554 curtidas, além de 35 comentários, a maioria apoiando a coragem e concordando com o que o colunista escreveu. 
Um dos leitores atribuiu a perda de controle sobre a cidade ao fato de terem “aberto as portas” e deixado pessoas vindas de fora tomarem conta. É notório que Bento Gonçalves cresceu – e muito – de forma desordenada, como a esmagadora maioria dos municípios brasileiros. Não há política pública nacional capaz de conter a onda migratória que devasta as cidades que são abandonadas e cria cinturões de pobreza nos locais para onde as famílias se mudam. Entretanto, culpar essas pessoas é leviano e simplista. Quando um lugar perde o vínculo emocional com as pessoas que moram nele, a culpa não é de a, b, ou c. É de todos. 
Claro que esse fluxo migratório desgovernado traz dificuldades. São raríssimos os governos que conseguem lidar com o aumento populacional – e consequentemente com a maior demanda em áreas nevrálgicas como saúde, educação e emprego. Mas há um lado dessa moeda que nem todos conseguem enxergar. Conheço muita gente que veio de fora e, da sua maneira, ajudou Bento a se desenvolver. E não são poucos casos, de grandes empresários a pessoas humildes que abrem mão de suas próprias vidas para melhorar a dos outros ou que simplesmente dão exemplos positivos. 
Portanto, penso que se uma cidade “morre”, a culpa tem que ser atribuída a todos que se conformaram em vê-la nesse estado sem nada fazer, independentemente de terem ou não nascido nela.
Bento Gonçalves está morta? Ainda não – ainda. Falta amor pela cidade? Com certeza. Temos como resolver isso? Claro que sim. Como? Precisamos descobrir. Quem dera eu tivesse uma resposta pronta para esta pergunta! Mas, mesmo sem uma fórmula pronta, penso que se cada um fizer a sua parte as coisas podem melhorar gradativamente. A começar com algo que parece simples, mas que é difícil de ser posto em prática: parar de reclamar à toa – não só das dificuldades que Bento enfrenta, mas de tudo. Pensamentos negativos atraem coisas negativas. Vamos guardar energia para reivindicar o que realmente importa para a cidade como um todo, não só para a gente. Vamos fazer a nossa parte, jogar o lixo no lixo, respeitar a sinalização de trânsito, ser gentil com as pessoas, não depredar o que é de todos. Vamos propor alternativas, vamos nos unir em torno do lugar onde moramos. Vamos ensinar nossas crianças. Vamos amar a nossa cidade apesar de todos os problemas que ela possa ter – e isso se faz buscando soluções para eles e cobrando ação do Poder Público. Afinal, quem ama quer o bem e é isso que, a meu ver, nos falta: querer o bem!


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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