A geração dos sensíveis

Por: Felipe Sandrin | 02/03/2017 00:00:00

Na escola, meu colega de bairro briga com outro garoto. O motivo? Um chamou o outro de gordo. Nos reunimos na saída para dar uma força a nosso vizinho, mas, no fim, ninguém mais briga. Na semana seguinte, lá estão os dois rindo como se nada tivesse ocorrido.
Nessa mesma semana em que a paz reina para alguns, o inferno surge para outros. As provas foram entregues, minhas notas foram nada menos que horríveis. Em casa, escuto o velho sermão. Tento retrucar: mas mãe, a culpa é da profe. Mais uma vez esse discurso não funciona, aliás, só piora tudo. O olhar de fúria dos meus pais diz tudo: “nem quando o professor está errado ele está errado. O professor é sagrado”.
Lá estou eu na selva chamada escola, um bando de selvagens loucos para fazer uma fogueira na biblioteca e, através de motim, pedir para negociar com o presidente do Brasil. Claro que tais desejos ficam contidos na imaginação, basta um olhar de qualquer professora e o sangue gela: “Vou mandar bilhete para teus pais”. Jesus, essa frase me arrancava a alma do corpo, ela deve ter dado origem ao salmo 23:4: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte”.
Não é uma época fácil, os fracos não têm vez, precisam aprender a ficar fortes. Por vezes, encontro esses ex-colegas por aí, combatentes ferozes que por fim sobreviveram e hoje sustentam com orgulho a face de quem aguentou cruéis apelidos.
Traumas? Certamente. Mas não tenham dúvida que muitos desses traumas forjam o que hoje podemos chamar de compromissos éticos e educação.
Enquanto isso, nesta semana presencio em um restaurante o pai pedindo para a filhinha onde ela deseja sentar, o que ela deseja comer, se ela deseja jogar no tablet. É tipo assim: “Milady, está confortável e satisfeita?”. Não consigo deixar de pensar que esse pai estará lascado daqui a uns anos.
Discutimos o uso de algumas palavras, o bullying, a sensibilidade do ser humano em seu estágio complexo de formação e sua dificuldade para com o mundo que lhe causou os traumas. Discutimos a delicadeza, o emprego dos termos, das letrinhas, dos dodóis que vamos causar no outro. Enquanto isso, o Trump chega ao topo da cadeia alimentar nos EUA. “Felipe, mas nada a ver uma coisa com a outra”.  É, fale isso para os democratas que adormeceram se preocupando com os termos corretos para se referirem aos obesos e acordaram com o topetudo mandando no país.
Gente sensível para todo lado, gente cada vez mais dependente de remédios e conversas com psicólogos. Gente que não fala mais em sair de casa, fugir, mas, sim, em sair da vida, matar-se.
Na Europa, mulheres reclamam que homens ficaram afeminados. Ao mesmo tempo em que o número de estupros cresce junto à chegada de muitos imigrantes, os homens europeus não sabem como reagir. Esses dias, inclusive, um desses homens deu um depoimento falando que teve medo de ajudar uma mulher que estava sendo vítima de abusos. “Elas chamam de machista qualquer homem que tente fazer algo por elas”.
Curar o mundo distribuindo flores. Eis a ideia que permite loucos tiranos chegarem ao poder.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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