Liberdade comprometida

Por: Greice Scotton Locatelli | 31/07/2020 11:41:06

Você se deu conta do quanto a nossa vida mudou depois da pandemia, especialmente em termos de liberdade? 
Antes você queria ir a um restaurante, bastava ir. O máximo que você precisava fazer era conferir se o estabelecimento funcionava naquele dia e horário. Agora é um tal de abre, fecha, abre de novo, fecha de novo, funciona com restrição. Na maioria dos lugares, não pode mais se servir no buffet, só metade das mesas disponíveis e controle de temperatura.
 O mesmo vale para as lojas que você costumava frequentar. O tal “horário comercial”, algo que todas praticavam antes, agora se tornou uma incógnita: umas só abrem de manhã, outras só à tarde, umas fecham por alguns dias, depois reabrem, mas sem todos os produtos. Alguns itens, aliás, nem mais produzindo estão. Em determinados locais, como em supermercados, não entra mais que um membro de cada família (em teoria, porque basta passar rapidamente em qualquer um deles para perceber que quando o controle é feito as próprias pessoas dão um jeito de burlar e se encontrar no interior da loja). O tradicional passeio no shopping aos finais de semana se tornou uma aventura: você até pode ir, mas é bem provável que vai se deparar com novos horários de funcionamento, lojas fechadas e um controle rígido de entrada do tipo que exige que você dê satisfação do que pretende fazer lá. Que saudades do antigo normal. 

Atividades físicas, antes tão badaladas como essenciais para uma vida saudável, viraram um desafio: ou você dá um jeito em casa mesmo ou se arrisca a ir para uma academia ou praticar ao ar livre e ser taxado de “inconsequente”. Sem contar que usar máscara durante o exercício exige ainda mais paciência do que no dia a dia. 

Nem vou entrar a fundo no mérito da educação porque só quem tem filhos ou convive com crianças ou adolescentes sabe o tamanho do impacto desse 2020 atípico Liberdade comprometida – e praticamente perdido – na rotina das famílias. 
Nossa vida virou um “bota casaco tira casaco”, tal qual o filme Karatê Kid. Ou seja, é um eterno loop de ações que parecem não nos levar a lugar algum, já que os 15 dias de fechamento obrigatório se tornaram um mês, depois quarenta dias... e agora já estamos indo para o 5º mês de indefinições. De quem é a culpa? Do vírus, de ninguém mais. 

Sim, eu sei: são medidas imprescindíveis para tentarmos (“tentarmos” porque a essa altura do campeonato eu já não tenho muita certeza de que o que estamos fazendo tem sido realmente eficaz) diminuir a disseminação do vírus. E não estou dizendo que não precisamos desses cuidados, pelo contrário: torço para que esses hábitos se tornem parte da nossa rotina não só para prevenir o novo Coronavírus, mas tantas outras doenças que um mínimo de higiene é capaz de evitar. O ponto aqui é que nosso estilo de vida mudou radicalmente em pouco tempo e isso impactou diretamente a nossa realidade. Tem dias em que é difícil se animar. 

Aliás, a saúde mental é outro item preocupante nesse contexto: como se manter otimista diante de tantas notícias negativas, de tamanha polarização de opiniões e de tantas indefinições? Tem dias (como hoje) que eu não consigo, admito. Aliás, tenho saudades de quando as indefinições da ciência eram se o ovo era vilão ou aliado da saúde. Agora as coisas mudam em questão de horas e ninguém sabe ao certo o que dizer ou fazer. Nossa vida virou um eterno jogo de tentativa/erro.

 Você pode ser do time do “fique em casa” ou daquele que defende que a vida não pode parar. Já não faz diferença. A sua liberdade, assim como a minha, está comprometida, acreditando você ou não na pandemia. E, infelizmente, ninguém sabe até quando isso vai durar. Se é que um dia vai passar. Tentemos nos manter firmes e seguros, do jeito que der. Já que esse é o tal do “novo normal”, não nos resta muita opção.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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