Faca de Dois Gumes

Por: Jeferson Dytz Marin | 09/06/2020 14:31:33

O pragmatismo, contraditoriamente, me encanta. Aspectos pragmáticos da vida são, não só os mais densos, mas também os mais ásperos, às vezes até repugnantes. Para mim, é extremamente proveitoso tratar sobre assuntos pragmáticos, porque quando eles são abordados, desvendar curiosidades, sentimentos e mazelas da vida cotidiana se torna mais simples, pelo menos é isso que me ocorre. Todavia, é deveras essencial relembrar das melodias harmoniosas da existência também, não só dos tons severos e incompletos da dádiva que nos pertence.

Jane Austen tinha uma escrita carregada e adequada aos padrões ortográficos e contextuais, mesmo com esses dois lustrosos adjetivos, ela não me surpreende, me ensina e se posiciona a léguas e léguas de distância do ato de me arrebatar com suas palavras. Entretanto, nem tudo em Jane Austen é seco e desgostoso: seus títulos são impecáveis, infalíveis. “Orgulho e Preconceito”, “Razão e Sensibilidade”, “Amor e Amizade”, enfim, seus títulos são belos e (isso é um elogio à autora) se acordam com o que suas obras carregam. Mas o que capta muito da minha atenção a esses títulos é a dualidade, que vem de Platão até essa mulher que se destaca nos anais da história do século XVIII. 

Conceitos são formados e apoiados pela dualidade, graças a esse formato, o programa “Mega Senha” existe, onde frequentemente os participantes divertem a audiência ao tentar adivinhar uma série de palavras usando outras relacionadas, sinônimos ou antônimos.

Antônimos e sinônimos, como são incríveis! São vitais para um diálogo, para o entendimento mútuo. A semântica é a maneira de estabelecer conexões mais deslumbrante, na minha opinião. Egoísmo e generosidade; juventude e velhice; esperança e desilusão; ódio e indiferença. Amor e paixão.

Os mais atentos podem ser capazes de compreender que falarei sobre os dois últimos, pela pontuação. Obrigo-me a confessar que, as disparidades que vou citar entre o amor e a paixão são apenas as mais chamativas e simpáticas que conheço, e devido à minha escassíssima experiência com ambos conceitos, tais divergências podem ser equivocadas ou até pior que isso, podem ser frutos da sonhadora e infestada de ilusões mente adolescente que me habita.

O princípio é o sabor. O amor tem um gosto amargo, que talvez desça na garganta adocicado. A paixão é mais simples: chocolate. 

Depois, vem o toque. O amor passa pelo corpo como uma mão delicada e suave. No caso da paixão, os ‘amassos’ são bruscos e firmemente cobiçosos.

Claro, também há o desejo. O amante deseja carinhosa, longa e imensamente não só a pele e as curvas do amado, também aspira sua felicidade e bem-estar. Já a paixão é fugaz, majoritariamente carnal e transpira sensualidade.

No significado dos dois significados, encontra-se um despretensioso complemento. No amor, o cuidado, a luta e a conexão são essenciais. O que define melhor a paixão, a meu ver, é a guarda paranoica, o juramento da guerra e o contato.

Por fim, vem a jornada. O amor demora para nascer, e se é cultivado, se torna imortal. A paixão é suscetível à morte, aliás, pode durar menos de um segundo, numa troca de olhares vívidos, por exemplo.

Mas, é bonito, é lindo, é majestoso assistir ao encontro dos dois. Quando o amor e a paixão deixam de ser dois personagens complexos e se condensam em um único amálgama, tentar evitar a plena euforia, fugir da própria paz é uma tarefa ineficiente. Quando alguém é, simultaneamente, um amante e um apaixonado, a dor é um boneco de pano, e o mundo é um vasto salão, como o que Jane Austen apresenta ao leitor nas suas páginas de festa. Talvez ela não seja tão ruim assim, posso me arrepender de escrever isso.

Como já afirmado antes, a paixão pode deixar de se existir, e se o amor se estabelece por um longo tempo, a paixão vai enfraquecer até, por fim, murchar completamente. Mas essa é a beleza de David e Golias. Não como adversários, mas como um time. A paixão é a ascensão, o desabrochar de uma flor, a tentativa de prever o futuro. O amor é a permanência, a água que rega a planta, o presente, que acaba por virar eternidade.

Que todos, ao menos um dia, amem ou apaixonem-se. As consequências do contrário são a indiferença e o vazio.

Finalmente, usando todo o meu devaneio de sonhador, penso que um mundo apaixonado prospera, e um mundo que ama, coopera como engrenagens em um relógio, e mesmo assim, não se entrega à rotina, ao tédio ou até mesmo à ganância, mas cai de cabeça na inefabilidade mais brilhante. 
 


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Jeferson Dytz Marin

Jeferson Dytz Marin

 



Professor e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Direito (Mestrado e Doutorado) da UCS. Doutor e Mestre em Direito. Líder do Grupo de Pesquisa (CNPq) Alfajus, com esforço de cooperação com a Pace Law School – Nova Iorque-EUA e Universitàdi Padova-ITA. Professor convidado em cursos de Doutorado, MBAs e pós-graduação lato sensu em diversas instituições, dentre as quais a Universidade de Coimbra-Portugal, Nova Lisboa-Portugal, FGV-RJ, ESMAFE - Escola da Magistratura Federal, UFSM e IEM – Instituto de Estudos Municipais. Autor de mais de dez livros e mais de 60 artigos jurídicos publicados no Brasil e no Exterior. Diretor da Marin Advogados Associados.



Contato: jeferson@marinadv.com.br.




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