Pessoas de alma leve

Por: Greice Scotton Locatelli | 09/11/2020 10:26:25

Você já ouviu aquela música do Cazuza que fala sobre “pessoas de alma bem pequena, remoendo pequenos problemas, querendo sempre aquilo que não têm?” Elas existem, aos montes, e são capazes de nos influenciar com o seu pessimismo típico. Em tempos de pandemia, a convivência com gente assim torna ainda mais complicada uma situação que já é deprimente por si só em função das incertezas que gera. 

Existe outra categoria, totalmente contrária, que eu chamo de pessoas de alma leve. Talvez você tenha tido a sorte de conhecer alguém assim ou, até mesmo, seja uma dessas raras pessoas que não se deixa abater pelas dificuldades do cotidiano, não importa o quão graves elas sejam. Na minha vida, uma das pessoas mais marcantes nesse sentido foi, sem dúvida, minha tia-avó Dilza Baú Cantelli, que faleceu no ano passado, aos 88 anos de idade. 

Sabe aquela pessoa que, dia após dia, vai superando as dificuldades sem perder a alegria e o bom- -humor? Alguém que consegue se manter leve, mesmo quando o fardo é demasiado pesado – e põe pesado nisso? As dificuldades que ela enfrentou na vida fariam qualquer pessoa desistir. Mas ela não: dona Dilza ria com a mesma facilidade que respirava. Com ela não tinha tempo ruim! 

Recentemente, o SERRANOSSA fez uma reportagem sobre o aniversário de 100 anos da dona Alda Dal Magro Bertarello, coincidentemente muito amiga da dona Dilza, outra dessas pessoas de alma leve que superou muitas situações difíceis e se manteve firme e bem-humorada, apesar de tudo. Como você reagiria se tivesse as pernas amputadas? A dona Alda brinca que não precisa mais de bolsa de água quente para esquentar os pés! 

Ao longo da minha carreira no jornalismo, tive o privilégio de conhecer algumas dessas raras pessoas. A mais famosa delas foi a dona Anna Variani, Pessoas de alma leve uma figura que nos ensinou que ser feliz passa por ajudar os outros e que acabou virando notícia nacional a bordo do seu icônico Fusca. Outro exemplo é o seu Dirceu Fritolli, que me fez rir muito contando como driblava a cuidadora para sair de casa de carro, trabalhar com serra elétrica ou subir no sótão – atividades consideradas perigosas para alguém que estava prestes a completar 100 anos de idade. Dona Anna nos deixou em 2009, às vésperas de completar 99 anos, e o seu Fritolli partiu em maio do ano passado, aos 102. Ambos deixaram mais do que legados de luta: nos ensinaram que bom humor faz toda diferença na qualidade de vida. Eram pessoas de “alma leve”, literalmente, que contagiavam positivamente quem estivesse ao redor. 

Relembrando a história não só delas, mas de várias outras pessoas que já superaram tanta coisa, a tendência natural é uma “quase culpa”. Estamos em pleno século 21, rodeados de tecnologia e informação e ao mesmo tempo sofrendo tanto com uma pandemia enquanto tem gente por aí que já passou por coisa tão pior e sobreviveu. 

É inevitável se questionar: será coincidência que essas pessoas de alma leve sejam idosas? Será a idade (e a sabedoria que ela traz) um fator determinante para superarmos desafios? Ou será que estamos ficando menos resilientes nesse mundo moderno bombardeado de informação onde chegar rápido importa mais do que o caminho em si? Temos tudo ao nosso alcance, mas não tenho certeza se a força interior necessária para nos adaptarmos às situações adversas está inclusa nisso. 

Dizem que você é uma média das pessoas com as quais mais convive. De que tipo de pessoa você está cercado: daquelas de alma leve ou de alma bem pequena? Pense nisso: pode fazer muita diferença no seu dia a dia e no modo como encara a vida!
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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