Como você está?

Por: Greice Scotton Locatelli | 25/09/2020 13:24:53

É inegável que a pandemia tem efeitos sobre a nossa saúde mental, especialmente em função do longo tempo que se passou desde o início da contaminação e do fato de não haver previsão de término. As pessoas ficaram mais ansiosas, mais deprimidas, de “saco cheio”, como dizem na linguagem popular. Ninguém mais aguenta tanta indefinição, tanto abre-fecha, tanta incoerência em relação a determinadas práticas. Notícias falsas ou infundadas invadiram as nossas vidas de tal maneira que é até difícil distinguir o que é real do que beira o absurdo completo. Não é para menos que muita gente hoje acredita em coisas escabrosas que não faziam o menor sentido antes da pandemia. Estamos frágeis, vulneráveis, inquietos, sedentos pela volta àquilo que conhecemos como “normal” para o qual, diga-se de passagem, nunca demos valor. Mas a vida é assim mesmo, só se aprende a valorizar algo depois que se perde. 

O uso de máscara, inicialmente tido como desnecessário e que depois passou a ser obrigatório por lei, ainda divide opiniões, seis meses depois. Não é raro encontrar gente sem o acessório, ou com ele no queixo ou sem tapar o nariz. A própria aferição de temperatura, obrigatória para reabertura ou manutenção de alguns setores tem dado o que falar – tudo alimentado por informações no mínimo duvidosas difundidas especialmente pelo WhatsApp. Tem gente que se nega terminantemente a deixar que a temperatura seja medida na testa, tanto que muitos estabelecimentos mudaram a logística do processo para poder continuar seguindo a lei. 

Quem tem filhos em idade escolar se vê diante de dilemas diários: mesmo com a retomada presencial gradativa das atividades presenciais, é seguro deixar as crianças irem para a escola? Saberiam elas se cuidar? Nos primeiros dias após o início da Educação Infantil, vários relatos de educadores nas redes sociais dão conta de que sim. Aliás, os pequenos estão mais conscientes do que muito marmanjo por aí. Mas e como estará o emocional dessas crianças? Até que ponto a nossa tentativa de mantê-los bem está ajudando a fazer com que eles vivam receosos e com medo? 

Mesmo assim, nada responde à pergunta que a maioria das pessoas têm se feito: até quando? Ah, quem dera alguém tivesse essa reposta! E parece que quanto mais a gente se adapta a esse “novo normal” (que de normal não tem nada), mais rápido o tempo passa. Você se deu conta de que daqui a algumas semanas estaremos comemorando o Natal – de novo? Comemorando? Comemorando o que mesmo? Vai saber se neste ano teremos como fazer algo nessa data. 

Esqueça tudo que você sempre fez, tudo que você conheceu. Agora as coisas mudam não mais a cada dia, mas em questão de horas. O que vale hoje, amanhã quem sabe. Aí eu pergunto: como lidar com a ansiedade que tanta incerteza gera? Como fazer nossas crianças entenderem que é “só uma fase”, quando essa fase nem nós sabemos quando vai terminar. Como fazer planos, ter coragem de tirar antigos sonhos do papel, tentar levar a vida sem um mínimo de certeza de como estará o mundo amanhã? 

Talvez você esteja pensando que nunca houve certeza em relação ao amanhã – e é verdade. Mas havia, pelo menos, um caminho padrão que conhecíamos, que permita que nos arriscássemos com um mínimo de segurança. Agora nada mais importa: mais do que nunca, viver o presente se tornou fundamental. E, mais do que nunca, o presente nos causa desconforto justamente porque não sabemos o que nos espera. 

Como você está em meio a esse caos que o mundo virou? Está conseguindo controlar a ansiedade, a tristeza, a angústia? Tem conseguido dormir? Tem perdido o apetite ou comido demais? Se descontrolado em relação a cigarro ou bebidas? Eu sei, não está fácil para ninguém, mas não dá para entregarmos os pontos: uma hora tudo isso vai passar, mesmo que o normal ao qual estávamos acostumados fique apenas na nossa memória. Cedo ou tarde a vida vai dar um jeito de encaixar tudo de volta nos eixos. E nós nos adaptaremos. Como sempre fizemos. 

Aguente firme!
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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