Meia-noite, três bêbados e o BBB

Por: Felipe Sandrin | 17/02/2017 00:00:00

Já passa da meia-noite, saio do estúdio cansado e com fome. Algumas ruas mais à frente uma lancheria está aberta, é por ali mesmo que vou ficar. Chego ao local e algumas mesas estão ocupadas, em uma delas três sujeitos bêbados falam alto de forma quase indecifrável – nada que os impeça de se entenderem. Na televisão aquele velho novo programa, o tal BBB.

Enquanto espero o lanche, deixo meus olhos assimilarem a bizarrice que passa na TV. Big Brother Brasil?! Quem diabos consegue assistir a isso? Apenas alguém com capacidades extremamente limitadas. Muitos diriam: ‘mas Felipe, para se distrair tá valendo’. Claro que sim. Por exemplo, eu estava em uma lancheria à meia-noite, o ambiente tinha cheiro de gordura e bêbados falando alto. O Big Brother era o complemento perfeito.

O provérbio garante: ‘Diga com quem andas e eu te direi quem és’. Poderia ser facilmente transcrito ao ‘diga ao que assistes que eu te direi quem és’. Eu sei, eu sei, temos essa mania de dizer que algo não é assim tão ruim, mas só o fazemos quando temos algum vínculo com essa coisa ruim.

Alguém ainda assiste ao BBB? Claro, senão como poderia tão boçal programa permanecer no ar? Chega a dar vergonha alheia ver pessoas comentando algo sobre um programa de tal nível. É diferente alguém que suporta um BBB daqueles três bêbados? Não. São todos parte de uma mesma sociedade que rasteja à procura de qualquer distração. Quanto mais barata melhor.

É de fato impressionante perceber o quanto às pessoas aprendem a suportar. Imploram presenças, chamam de amigos alguém que conhecem dividindo drogas em uma festa de música eletrônica, descrevem esses como ‘numa mesma vibe’, então alguns meses depois dizem a quem quiser ouvir que tal pessoa não presta. Trocam de ‘amigos’ como se fossem trocar de canal, como se tirassem do BBB e colocassem em um Zorra Total, aliás, ainda existe essa outra porcaria?

Quantos, afinal, estão dispostos a abrir um livro? Juro que por vezes da saudade da Dilma, vê-la falando em estocar vento e pensar que temos alguém à nossa imagem e semelhança no poder. O Temer é sem graça, ele só me faz lembrar o quanto o Brasileiro pode ser corrupto, a Dilma pelo menos trazia o pacote completo entre a canalhice e a burrice.

Aí, aí, ‘Brasilzaum’, quantos Big Brothers ainda passarão? Quantos ‘vale a pena ver de novo’, quantos programas de humor com piadas para a quarta série teremos de suportar? Vejo o tiozão no sofá, ele ri de tudo, e se o programa for policial a frase preferida é ‘tem que matar todo mundo’. Será que estamos ficando como nossos pais? Talvez piores.

As pessoas estão cada vez mais rasas, não há como negar isso. A geração BBB está crescendo em corpo, mas a cabeça continua como se tivesse 10 anos. Observar a vida através de equipamentos eletrônicos é a preferência da maioria, para os que fogem disso sobram as festas na sexta, sábado e domingo. Leem? No máximo livros que ensinam a vender mais, que ensinem a aumentar a alto estima ou combater a depressão.

Talvez eu seja crítico demais, mas seria um sintoma de loucura eu não ser. Ou eu precisaria sentar-me na companhia dos três bêbados ou no sofá de casa louco para assistir ao BBB.

É insano imaginar o quanto o brasileiro aprendeu a suportar.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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