Que tal tentarmos ser mais agradáveis?

Por: Greice Scotton Locatelli | 16/10/2020 11:36:05

Empatia é uma palavra “da moda” que significa, simplesmente, colocar-se no lugar do outro. Nesses dias de tanta incerteza, com muita gente depressiva e angustiada, ter empatia pode fazer toda a diferença. 

Acredite, não precisa grandes mudanças. Basta pensar um pouco antes de falar. Exemplos práticos: alguém hospitalizado precisa de ânimo, não de assuntos pesados que vão deixá-lo ainda mais aflito. Frases do tipo “fulano teve a mesma doença que tu e não sobreviveu” ou “a doença de sicrano foi mais grave ainda, tu devia agradecer” só pioram tudo. Comparações são especialmente desagradáveis porque costumam ter um efeito extremo: ou fazem a pessoa comparada sentir como se estivesse exagerando ou potencializa o sofrimento dela. Se você disser para alguém que acabou de perder um familiar muito querido que chorar não vai fazer a pessoa voltar, só vai provocar ainda mais sofrimento, fazendo com que ele se sinta mal por estar demonstrando o que sente naquele momento. E o que você ganha com isso? Absolutamente nada, sem contar que corre o risco de perder uma amizade. 

É a mesma coisa que chegar para uma mulher grávida e dizer “te prepara para nunca mais dormir” ou “ele vai te dar muito trabalho”. Sim, é a realidade, pode ser que aconteça, mas custa tentar não ser tão desagradável? Até porque cada gestação é única, assim como cada criança. Aliás, quer irritar qualquer mãe ou pai? Compare o filho deles: “o filho da fulana já caminhava com um ano, por que o teu ainda não?”, “teu filho está muito magro, acho que teu leite é fraco”, “não é melhor levar a tua filha no psicólogo? A minha não fazia tanta manha com essa idade”. Quando eu presencio uma cena dessas – e acredite, se você prestar atenção verá que é muito comum –, as palavras que me veem à cabeça são impublicáveis. 

Outro exemplo: você falar da aparência da pessoa. Acredite, ela tem plena consciência de que é baixa, alta, magra, gorda, careca ou cabeluda. Você não precisa falar sobre isso, especialmente se for para ressaltar o que você considera um “defeito” – lembrando que para ela o que você julga ser “feio” pode não ter importância alguma. Ela tem espelho em casa e seja qual for a característica, não diz respeito a você. 

Quem tem um nome ou sobrenome diferente também costuma sofrer com a falta de noção alheia: quando você pensar em fazer uma piada sobre isso, reconsidere: com toda a certeza ela já ouviu isso antes (provavelmente mais de uma vez). 

Tempos atrás eu estava em um lar de idosos fazendo uma reportagem e ouvi duas senhoras conversando. Uma delas, pelo que entendi, levaria o pai para casa naquela tarde, para que pudesse passar mais tempo com ele, já que o prognóstico do câncer em estágio terminal era bem ruim. Rapidamente a outra alfinetou: “já que não tem mais volta mesmo, não era melhor deixar ele aqui? Pelo menos você não precisaria vê-lo morrer”. Gente, por favor! Se você não tem o que falar, o silêncio é uma ótima saída. Para que tornar uma situação já absurdamente triste em algo pior? 

Às vezes não nos damos conta de como é comum isso acontecer em função da correria do dia a dia e talvez por já estarmos acostumados à crueldade e à maldade humana. Mas quando paramos para refletir fica fácil encontrar exemplos de situações horríveis por si só e que se tornaram ainda piores porque as pessoas envolvidas não tiveram empatia ou simplesmente respeito e foram desagradáveis em suas colocações. Faz parte do comportamento humano, todo mundo está sujeito tanto a praticar quanto a sofrer com isso. Mas não custa tentarmos melhorar só um pouquinho nesse sentido, concorda? Seria mais fácil viver em um mundo de palavras e atitudes mais agradáveis.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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