Exemplos a serem seguidos – Parte 2

Por: Greice Scotton Locatelli | 03/02/2017 00:00:00

A cada eleição, os mesmos discursos, as mesmas promessas, as mesmas reclamações dos eleitores sobre políticos que aparecem somente na hora de pedir voto. Entra governo e sai governo, projetos se arrastam e a burocracia toma conta. Mas na maior cidade do Brasil, São Paulo, o primeiro ano do mandato do prefeito parece estar seguindo para um caminho diferente, quase como o que ocorre na iniciativa privada. João Agripino da Costa Doria Junior, mais conhecido como João Doria Jr., foi eleito prefeito em primeiro turno com mais de três milhões de votos e tem surpreendido ao inovar para tentar agilizar a máquina pública. Mesmo com as polêmicas típicas que acompanham as mudanças drásticas, o que chama atenção é a agilidade com que demandas históricas estão sendo resolvidas por lá. 
Claro que muito disso é marketing – e como jornalista, empresário e publicitário, o prefeito sabe muito bem como conduzir isso a seu favor. Uma das principais estratégias é tentar desviar o foco do milionário João Dória Jr. e incorporar o papel de “João Trabalhador”. Tem dado certo, ao que se percebe de longe. Jogadas de marketing à parte, muita coisa é surpreendente: você já viu algum prefeito (depois de eleito) varrer ruas? O primeiro ato dele após a posse foi vestir o uniforme de gari e, ao lado dos secretários, varrer uma das avenidas mais movimentadas da capital paulista. E não foi um gesto isolado, o prefeito também já se vestiu de pintor, de operário e até usou uma cadeira de rodas para testar, na própria pele, o quanto sofrem os cadeirantes com a falta de acessibilidade nas ruas da cidade. 
As metas do prefeito são quase utópicas: ele quer zerar a fila de espera por exames médicos – hoje são 100 mil pessoas aguardando – e resolver o déficit histórico de vagas em creches sem construir nenhuma instalação nova. Também apresentou propostas para atender os cerca de 16 mil moradores de rua através da junção de voluntários interessados que hoje atuam de forma pontual para que possam unir forças sob a liderança da prefeitura. Ele também quer acabar com as temidas enchentes, resolver problemas sociais que envolvem dependentes químicos e reconstruir calçadas sem que o ônus recaia sobre os proprietários do terreno. Até agora, ele geriu a cidade como um gestor privado, inclusive criando multas para secretários que se atrasam em reuniões. O tempo dirá se ele vai conseguir continuar nesse caminho.
Aparições midiáticas à parte, a postura de João Dória Jr. faz com que novamente a imagem do ex-prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, venha à tona. Assim como citei na coluna anterior, ele se destacou por colocar em prática ideias relativamente simples e que provaram fazer toda a diferença no desenvolvimento da capital paranaense. O que não falta a ele é humildade – aliás, essa é uma das mais importantes lições dele, enquanto gestor público. “A gente faz aprendendo. Inovar é começar. É preciso deixar espaço para que a população te corrija quando não estiver no caminho”, ensinou, durante a entrevista ao jornalista Roberto D´Ávila, da GloboNews. Tal qual Dória Jr., Lerner enxerga a cidade como um organismo que pode ser modificado em um espaço relativamente curto de tempo. “Antigamente, eu acreditava que em três anos era possível mudar uma cidade. Hoje, penso que dois anos e meio são suficientes. Importante é começar, não dá para ter todas as respostas antes. Fazer acontecer é a coisa mais difícil no meio político e, no Brasil, se faz de tudo para que as coisas não aconteçam”, lamentou. Quanto à velha desculpa “não há verbas”, o ex-prefeito de Curitiba dá a dica: “Importante é fazer com pouco dinheiro, quando tem dinheiro demais, atrapalha. Se você quer fazer com criatividade, corte um zero do orçamento. Se quer fazer com sustentabilidade, corte dois zeros”, simplifica, como se existisse uma fórmula mágica capaz de garantir uma gestão pública eficiente. Talvez haja, basta saber aplicar a simplicidade da vida aos obstáculos que ela nos impõe. E isso Lerner soube fazer como poucos: a visão de simplicidade é tanta que todo planejamento de Curitiba foi feito em anotações a caneta em cadernos tipo moleskini, os quais ele guarda até hoje.
Partidos e ideologias políticas de lado, é isso que Bento Gonçalves, assim como todas as outras cidades desse país continental, precisa: pessoas dispostas a minimizar os problemas da maneira mais simples e eficaz possível. 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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