Vampiros da jovialidade

Por: Felipe Sandrin | 03/02/2017 00:00:00

Dez anos atrás, em algum Carnaval por aí. Lembro com nitidez as garotas dançando com os pés descalços sobre um sofá. Em uma mesa de centro, um cara sem camisa jogava cerveja para o alto e tentava agarrar alguns pingos com a boca. Música ensurdecedora com uma letra que abordava um tema emocionante, a história de uma garota que cansou de rebolar e agora queria “dar”.
Dez anos depois, surge um vídeo na linha do tempo do meu Facebook, um vídeo que reproduzia exatamente o momento que presenciei e de certa forma participei anos antes: o quê? Alguém registrou aquele momento? Não, o vídeo era atual, as pessoas que nele estavam eram praticamente as mesmas de dez anos atrás, só que notavelmente mais velhas, barrigudas e com muito mais pelos na cara. É, o vídeo era atual. Dez anos atrás, o ritual se cumpria. Aliás, assim também parece ter sido ano passado, em 2014, 2013... 2010.
Peter Pan não quer crescer. A “Terra do Nunca” é um lugar fantástico, tudo que se imagina pode ser realizado, as crianças voam e não precisam envelhecer. Carnaval é um lugar mágico o qual muitos foliões podem visitar todos os anos e relembrarem sua infância. Ah essa fabulosa adolescência, as substâncias ilícitas, as garotas mais cobiçadas podendo dar aquele mole para a rapaziada. Para muita gente, crescer é um saco e o Carnaval é a libertação temporária.
A vida é como um grande palco, uma peça a se repetir todos os anos. Temporada após temporada, os mesmos atores se reúnem na esperança de relembrarem os tempos áureos quando as costas não doíam e uma hora de sono era suficiente para suportar o dia seguinte de estudos e trabalho.
As pessoas têm medo que as coisas não mudem, elas renegam as futuras gerações como o diabo renegaria a cruz: “Esses adolescentes de hoje em dia? Eles não sabem o que é se divertir. Na minha época, sim, era legal”.
Virou rotina caras de 40 anos na noite, geralmente cercados por meninas de 18. Devem se sentir renovados, tanto que, quando as meninas começam a envelhecer, logo eles as substituem por outras de 18, feito vampiros da jovialidade. As pessoas estão em curto-circuito, certas ou erradas? Quem pode dizer? O fato é que há gerações inteiras dando sinais de uma confusão tão intensa que faz homens com 40 anos agirem como garotos de 15.
Crescer dói, alguém me disse isso, porém, hoje me dou conta que o que dói mesmo é perceber. Tem gente que cresce, mas não percebe, gente que aplaca confusão com mais barulho, bagunça e fumaça. Tática de guerra: atire para qualquer direção, mas não fique parado.
Morro de medo de ser aquele mesmo idiota que eu era com 20 anos. Não que eu não possa ser um idiota agora aos 30, mas o lance é não ser o mesmo idiota de antes, cometendo os mesmos erros de antes, sentindo angústia pelas mesmas coisas que me angustiavam dez anos atrás.
No fundo, talvez eu tenha um pouco de inveja dessa gente que, ano após ano, entra no Carnaval como se ainda tivesse 20 anos. Quisera eu esquecer tudo e dançar seminu sobre um sofá segurando uma garrafa de cerveja, imaginando um mundo onde as garotas são fáceis e as drogas são baratas.
Quer dizer, pensando bem, ainda bem que eu não sou o mesmo de dez carnavais atrás. 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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