Sobre nosso amor pelas mulheres

Por: Felipe Sandrin | 03/10/2017 00:00:00

Mulheres sempre foram os ventos que conduziram a embarcação da minha vida. Apaixonei-me cedo: pelo que lembro, a primeira tocou minha mão enquanto eu estava sentado na borda de uma piscina. Chegou mansa, quase como sem querer e, de imediato, eu me senti como quando muito se quer algo, mas não se sabe o quê.
Fiquei tão tímido na época que mal olhei seu rosto, lembro apenas de seus longos cabelos cacheados. Acredite, você, passei anos procurando aquela garota, indo ao mesmo clube de piscinas apenas na esperança de vê-la novamente. Nunca mais a encontrei ou reconheci, mas passei dali por diante a ser guiado de forma aventureira pelos estreitos espaços desse labirinto emocional ao qual só as mulheres nos conduzem.
Não posso falar por todos os homens, nem dar o real sentido sobre a palavra mulher. Posso apenas falar por mim, pelos meus 30 anos, dos quais os mais intensos foram marcados pelas mãos femininas que me agarravam e soltavam.
Mar calmo e temporais, naufrágios e descobertas maravilhosas. Só fui pirata porque naveguei buscando novos tesouros, e cada mulher que toquei foi um – sempre diferente –, o que me instigava a não desistir de novos tesouros caso o presente me fosse roubado.
Aprendi sobre seus poderes, sobre serem umas hoje e outras amanhã, quererem algo hoje, mas talvez não amanhã. E elas sabem ser complicadas, elas entendem cedo que o único tempo perdido é o tempo ao lado de quem não aprende a desfrutar de suas doidices.
Aprendi sobre mulheres que se mostram em expressões fechadas, mas que guardam grandes sorrisos. Que parecem mal-humoradas, mas que fazem qualquer um rir. Essas mulheres que não usam flores no cabelo nem nas palavras, mas que são as primeiras a ajudar quando alguém de quem elas gostam precisa. Ah se o mundo soubesse quanta graciosidade cabe atrás da armadura que veste uma mulher.
São asas de borboleta e olhares que desviam, são mãos macias e sentimentos calejados. São traços profundos para sorrisos que se desenham por décadas e linhas invisíveis que dão contorno ao eu delas que aprendeu a sempre desconfiar. São tão fortes que resistem aos mais tediosos homens. 
Uma das grandes graças de envelhecer é redesenhar as linhas do que pensamos ser uma mulher. São sempre um tesouro escondido ou a esconder e, mesmo que não nos vejam por aí com um papagaio no ombro, uma perna de pau e um tapa-olho, ainda assim homens que sabem admirar uma mulher são como deslumbrados piratas, seguindo o canto de alguma sereia que nos cantou aos sonhos um encanto o qual somos fadados a buscar mesmo que por uma vida inteira.
Meu Deus! Penso que triste fim seria minha vida sem as mulheres. Não lhes entrego flores, mas, sim, meu coração, por vezes desvirado em cacos, mas ainda assim pronto a ser curado por quem próprio lhe atormenta. Pois o amor de uma mulher é incrível, cura tudo, até a dor insuportável que somente elas sabem causar.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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