Sua relação é um laço ou um nó?

Por: Felipe Sandrin | 17/03/2017 00:00:00

A pergunta que mais escuto atualmente: “Felipe, estou em uma relação difícil, sinto que já acabou, mas não consigo me desapegar. O que faço?”. Conheço gente que faz isso o tempo todo: agarra-se ao que já acabou faz tempo. O apego traz os laços, que são importantes, mas quando se transformam em nós passamos a ter um grande problema.

Primeiro: qual a diferença entre um laço e um nó? Imagine o cadarço de seu tênis, pense no laço, em como ele é leve, fácil de soltar para ser novamente remodelado. O laço, ao contrário do nó, requer uma série de movimentos carinhosos, uma delicadeza que o desenhe e a prática de anos. O nó é o fracasso do laço: quando você erra o movimento do laço, ele pode se tornar nó.

Laços afrouxam e, por isso, precisamos constantemente refazê-los. O nó é fixo, não requer dedicação para ser feito e mantido, mas o seu preço é o sufoco, ele não afrouxa, ele não solta sozinho e, o pior, ele deixa as pontas soltas. O nó não cria o volume necessário para que os extremos sejam contidos. Um relacionamento de nós é um calçado com cadarços soltos o qual constantemente nos traz a sensação de que podemos tropeçar a qualquer momento e teremos dificuldades tanto para tirar quanto para pôr – entrar e sair.

Presencio esse sofrimento de forma constante, a todo o momento recebo mensagens de pessoas que estão tão enleadas em suas relações a ponto de só restar o sufoco. Elas são a lembrança do que foi bom e a constante sensação de que não está mais sendo. Elas vivem em uma esperança de que a relação volte a ser o que era, mas, por fim – claro –, isso nunca acontece.

Deixar ir é aceitar a morte da relação, então, a fim de enganarmos a sensação de morte, preferimos nos agarrar a uma falsa luta na qual tentar resgatar o que fomos com aquela pessoa faz esquecermos a realidade: não há mais como resgatarmos o alegre passado junto daquela pessoa.

Assim, não aceitando o sofrimento, nós o tornamos muito maior. O que era para ser a dor do fim se torna uma constante angústia que nos faz sentir ao mesmo tempo impotentes e covardes.

O laço – até então desenhado com duas mãos – se torna um nó, a dedicação em refazer aquele laço agora se tornou o cansaço de tentar desfazer um nó que não permite seguir em frente. A delicadeza virou sufoco e caminhar com as pontas soltas nos faz constantemente lembrarmos do nosso fracasso para conosco e com o outro.

Desfazer o estrago requer parar tudo, sentar, tirar o tênis do pé e, por vezes, usarmos os dentes. É um processo em que, quanto mais precisamos de calma, mais ansiosos ficamos. É, de fato, tão cansativo que o adiamos o máximo possível. É doloroso, mas necessário. Seguir em frente requer a dor de aceitar que chegou a hora de se desprender do que um dia foi laço e agora é apenas um sufocante nó.

Dói, mas dói muito mais a insistência em aceitar pouco de algo que já foi tão importante e bonito.

Soltar os nós é o primeiro passo para aprendermos a refazer novos e felizes laços. 

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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