Significantes e significados

Por: Thiago Galvan | 04/01/2021 15:24:38

Jean Cocteau certa feita disse: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez”. Para quem não conhece, Jean Cocteau foi um artista multifacetário francês, que se destacou em todas as áreas das artes. Escrevia poesias, peças de teatro, além de ter sido ator, cineasta, designer, dentre outras, tendo ele escrito até letras de música.

Essa frase, porém, não é a única de seu repertório que ganhou notoriedade. Jean Cocteau era conhecido e reconhecido por frases de efeito, nem sempre contextualizadas. Eram elas, às vezes, jogadas em conversas aleatórias, textos ou encenações, e todos ficavam questionando o porquê daquela colocação, naquele momento. 

Ora, talvez ele soubesse o significado daquilo. Talvez, naquele contexto, aquela colocação viesse de um pensamento decorrente do que estava acontecendo, do dia a dia, de alguma fala de alguém ou até, por que não, de uma desilusão amorosa. Ou uma grande satisfação amorosa...

Na vida, espera-se um significado de tudo. Ou, pelo menos, acredita-se que tudo tem um significado. 

Na arte, todavia, não é assim. A arte às vezes é o próprio significado à procura do seu significante.

Estamos acostumados com poesias onde exista um conjunto de palavras escritas em versos, normalmente rimando entre si, e que nos diga alguma coisa. Da mesma forma, quando escutamos uma música, esperamos que as palavras ou frases tenham certa ligação entre elas, uma combinação sonora, que as terminações tenham mesma sonoridade. Fato esse, aliás, que acabou por conceder o que os artistas chamam de licença poética, para o que, por vezes, eles possam dizer coisas desconexas, com mesma sonoridade, para que a música fique agradável aos ouvidos, independentemente do fato de que aquilo que eles estão dizendo, ao final, nada diga. O cantor brasileiro Gilliard, certa feita, explicou exatamente isso sobre uma música sua, cuja letra não diz “nada com nada”, mas com uma sonoridade bem interessante, agradável aos ouvidos.
O cantor Paulo Ricardo, por sua vez, em uma música que gosto muito, “Olhar 43”, em uma parte da música, em palavras minhas, diz que “não vai mais rimar e que a letra vai sair como sair e tudo bem”. Será que ele pretendia fugir à regra? Mas, sendo a arte, algo especial, específico, será que ela deve seguir uma regra? Será que vale mais aquilo que diz, pelo significado, ou aquilo que faz, pela sonoridade, pelo significante? Será que a sonoridade efetivamente significa alguma coisa? Será que as frases soltas do Jean Cocteau tinham algum significado? Ou pretendia ele, apenas, fazer algo significante para a sua vida e a vida dos demais, deixando essa como uma marca presencial de sua arte? Será, então, o significado mais importante do que o significante?

Eu, particularmente, prefiro entender o significado daquilo que estou ouvindo para, a partir daí, decidir se é significante. Jean Cocteau, então, efetivamente “sem saber que era impossível, foi lá e fez...”.

Até a próxima!

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Thiago Galvan

Thiago Galvan

Advogado (OAB/RS 64.762) | Especialista em Direito Público e em Direito Penal e Criminologia, ambas pela PUCRS. Diretor Jurídico da ASCORI. Diretor da AGADIE para o Biênio 2020/2022. Membro da Comissão Estadual de Direito Imobiliário. Contato: [email protected]




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