Confiança desfeita

Por: Greice Scotton Locatelli | 24/03/2017 00:00:00

Sem confiança não há relações interpessoais, nem em sociedade. Mas como confiar em pessoas, empresas, instituições e governos diante de tantos absurdos que vêm à tona todos os dias? As estarrecedoras descobertas feitas pela Polícia Federal (PF) na última semana fizeram muita gente repensar seus hábitos. A Operação Carne Fraca detectou, em quase dois anos de investigação, que as Superintendências Regionais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, do Paraná, Minas Gerais e Goiás atuavam diretamente para proteger grupos empresariais, em detrimento do interesse público – o que significa, nesse caso, em detrimento da saúde da população. A maior operação da história da PF mobilizou 1.100 policiais federais, que cumpriram 309 mandados judiciais em residências e locais de trabalho dos investigados e em empresas supostamente ligadas ao grupo criminoso, inclusive em Bento Gonçalves. 
Enquanto isso, nós, os idiotas que se obrigam a confiar no sistema, seguimos sendo vítimas da ganância e tentando adequar nossas vidas a uma rotina mais saudável, sem saber que, por mais esforço que se faça, consumimos veneno todo santo dia. 
Nutricionistas, médicos e especialistas insistem em dizer, há muito tempo, que uma vida saudável requer dedicação e equilíbrio e que descascar mais e desembalar menos seria uma das formas de se ter mais saúde, junto com evitar alimentos ultraprocessados, ricos em sódio e outros componentes químicos nocivos ao organismo. Preocupado com o futuro, você passa longe da seção de congelados, muda sua rotina para incluir refeições feitas em casa, sem conservantes ou aditivos, e segue à risca a recomendação de balancear carboidrato e proteína, associados a legumes, verduras e frutas em um prato bem colorido. Reduz carne vermelha, corta frituras e doces, refaz a sua agenda já apertada para incluir meia hora por dia de exercício físico e chega até a ficar mal-humorado quando morre de vontade de devorar uma caixa inteira de bombons ou de tomar uma cerveja gelada ao fim de um dia exaustivo, mas não o faz em nome da dieta.
Você faz tudo isso para ser saudável, para viver mais, para ter melhor qualidade de vida, para envelhecer com um pouco de dignidade. Então liga a televisão e fica estarrecido com o que ouve: aquele boato assustador de que o frango que você come no jantar é engordado à força, com uma grande dose de hormônios, pode não ser algo tão ruim assim. As coisas são bem, bem piores do que isso. Tem papelão dentro do frango tão saudavelmente correto. Grandes frigoríficos pegam carne podre, vencida, e misturam um monte de produtos químicos (muitos comprovadamente cancerígenos) para “maquiar” a peça que nós, desavisadamente, compramos e cozinhamos. 
Por mais que se tente, não há como sermos autossuficientes em tudo. Precisamos confiar no produtor que planta, na empresa que distribui, no mercado que vende, no abatedouro que fornece a carne para o mercado ou para o açougue, nas pessoas que lidam, especialmente, com os alimentos. Precisamos confiar que há um sistema que regulamente e fiscalize tudo isso. Precisamos, mas isso ficou um pouco mais complicado depois desse soco no estômago dado pelas descobertas da Polícia Federal. A notícia boa é que, apesar de o sistema de fiscalização ter falhas graves provocadas pela ganância, ainda existem pessoas e instituições preocupadas em zelar pela saúde alheia.
Não sei quanto tempo levará para reduzir o impacto financeiro (para as empresas e para a economia nacional) e a insegurança dos consumidores. Na verdade não sei se essa quebra de confiança poderá ser reparada. 
Esse episódio entrou para o rol dos piores exemplos de ganância que a sociedade brasileira já viu. Esperamos que não venham outros.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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