Previdência: um dízimo que nunca paguei

Por: Felipe Sandrin | 24/03/2017 00:00:00

Desde cedo me mandavam fazer a Carteira de Trabalho, “Você precisa para um dia se aposentar”, diziam eles, mas minha resposta estava sempre engatilhada: “minha geração não vai ter esse lance de aposentadoria”. Mas o que poderia eu, aos 15 anos, entender sobre tão complexo assunto? Lembro-me de um telejornal transmitir uma matéria sobre a França caótica diante um sistema previdenciário falido e um dos entrevistados dizendo “será assim no Brasil”.
“Será assim no Brasil”. Fez morada tal frase em minha jovem mente, acreditei tão fielmente em tais palavras que, dali por diante, esqueci a ideia da Carteira de Trabalho. Para mim não fazia a menor diferença vê-la assinada. Comprovar que trabalhei? Por quê? Minha fé no sistema já havia ruído e eu nem sabia.
O que você acha da reforma da Previdência? Perguntam-me. Nunca sei se respondo como sendo o Felipe Sandrin que se importa com ele mesmo e com os seus, ou se respondo como cidadão de um mundo globalizado no qual o todo reverbera no um. Entenderam? Para ser mais direto: ou respondo pela pimenta que me cai nos olhos ou pela pimenta que cai nos olhos dos outros.
É fácil para mim não estar nem aí para a reforma da Previdência. Eu simplesmente não me importo se daqui uns dias as pessoas só passem a se aposentar aos 80 anos. Ficar triste por conta disso só cabe a quem um dia acreditou nessa tal Previdência e em seu principal acionista: o governo. 
A ideia de envelhecer e depender de algo oriundo de políticos sempre me pareceu uma total insanidade. Se aos 15 anos eu repetia a quem quisesse ouvir sobre como minha geração não receberia aposentadoria, imaginem hoje, aos 30, e ainda mais incrédulo no sistema que compõe a decrépita pátria Brasil.
Mas claro que eu entendo você, seu questionamento sobre quando chegar aos 65 anos e de que forma viverá se nem as moedas que lhe são direito cairão em sua conta todo mês. Becos assustadores se avistam logo após a esquina. As pessoas temem morrer antes de começar a receber seu suado benefício, temem precisar trabalhar quando já idosos e desprovidos do vigor de uma juventude que faz com que aceitemos trabalhar 50 anos de nossas vidas em empregos os quais odiamos.
Mesmo que se aprove o novo plano de Previdência – e será aprovado –, em dez anos voltaremos a novamente ao assunto, o mesmo filme, os mesmos atores e o mesmo final. Isso porque no Brasil ninguém toca em feridas, ninguém quer fazer o que é necessário ser feito ou mesmo falar o que deve ser dito.
Década após década, educamos pessoas para serem servidores públicos. Famílias inteiras se ergueram sobre a jazida do “trabalhe para o Estado, se aposente cedo e ganhe uma boa grana pelo resto de sua vida”. Com isso, destruímos boa parte do empreendedorismo, migramos em massa para debaixo da saia dos governos. Eis o preço a se pagar quando substituímos criatividade por servidão voluntária. 
Sei que, para muitos, a Previdência surge como um assunto de vida ou morte, mas não para mim, não para muitos de minha geração. Nós somos os líquidos, sem forma, nós percebemos que nada neste mundo é tão concreto que valha uma real devoção, principalmente quando esse algo depende de algo chamado governo.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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