O que você faz com R$ 15?

Por: Greice Scotton Locatelli | 31/03/2017 00:00:00

Era para ser uma daquelas ideias do tipo “como é que ninguém pensou nisso antes?”, uma solução para um problema histórico de Bento Gonçalves. Era para ser algo simples, do qual toda a comunidade poderia participar, sem grande esforço. Imagine 68.015 pessoas tendo a oportunidade de mudar a segurança, de participar da compra de viaturas, rádios, equipamentos. Imagine mais policiais patrulhando as ruas, respostas mais rápidas à criminalidade, mais ações preventivas. Imagine R$ 1 milhão investido. Só imagine, porque não vai acontecer. 
Das 68.015 casas e empresas de Bento Gonçalves que receberam o carnê do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) com o boleto para contribuição espontânea ao Consepro, no valor de R$ 15, só 2.195 pagaram. De R$ 1.020.000 que poderiam ter sido investidos na segurança, serão R$ 32.925, quase 31 vezes menos do que a expectativa máxima de arrecadação. Claro que quase R$ 33 mil é uma quantia vultosa, mas não quando se trata de um setor tão sucateado e esquecido quanto a segurança pública.
Buscando uma explicação para o que justificaria tão baixa adesão, o SERRANOSSA fez uma enquete no Facebook. Os argumentos dos internautas foram esperadamente clichês: “já pagamos pela segurança através dos impostos”; “já roubam que chega”; “não se sabe para onde vai esse dinheiro” etc.
Sejamos francos: dá para condenar esses argumentos? Claro que não! É a mais absoluta verdade. Somos esmagados por impostos sobre tudo que consumimos ou fazemos e o retorno é infinitamente menor, quase nulo. Salvas poucas exceções, se queremos ensino de qualidade precisamos pagar escola particular; se queremos um mínimo de dignidade é preciso contratar um plano de saúde; a infraestrutura das ruas e estradas é péssima; empresas de monitoramento conquistam novos clientes todos os dias porque a segurança pública está em descrédito e por aí vai. Sem falar nos escândalos diários de corrupção. Mas, se até hoje nos conformamos e pagamos a conta, se já pagamos tanto para ter tanta coisa que seria obrigação do nosso sistema político moralmente falido, doar R$ 15 é tão absurdo assim?
Um dos comentários que chamou atenção nesse sentido foi o do leitor Henrique Hübner: “Paga quem quer, não somos obrigados, já que é de competência do Estado a segurança pública. Eu paguei, lá em casa somos em 4, dá R$ 3,75 para cada um, uma cerveja do fim de semana. Na esfera municipal é fácil ver onde são aplicados os recursos. O Estado é omisso, concordo, a maioria de nós nem sabe quanto de imposto paga. Mas ainda acho que R$ 15 é muito pouco comparado ao benefício que pode nos trazer, pode ser um guarda a mais na rua, uma viatura a mais na rua. Se você for extremista, balas a mais no revólver do PM”. 
Foi uma primeira tentativa de vincular a contribuição espontânea ao IPTU. Embora a ideia seja válida em termos  de logística, penso que é preciso trabalhar melhor a divulgação do que o Consepro faz e prestar contas sobre onde o valor é investido para minimizar a polêmica e alavancar os resultados. O IPTU é um imposto tradicionalmente controverso, cobrado em uma época do ano em que as pessoas estão atoladas em contas – e revoltadas e desesperançosas em função disso – e neste ano teve o agravante de ter sofrido um reajuste que a prefeitura demorou a esclarecer.
Talvez no ano que vem, quando houver uma divulgação maior tanto do objetivo da ação quanto de onde é aplicado o dinheiro, mais gente concorde em ajudar. “Não paguei e enquanto não for apresentado um projeto acredito que a maioria não o fará também”, disse o leitor Moacir Arlan.
Todos têm razão em seus argumentos. É preciso é unir forças para encontrar saídas sem onerar a população ou, se não houver (como parece ser o caso), buscar soluções para que o processo seja o mais transparente possível.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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