Por que eu escrevo ao SERRANOSSA?

Por: Felipe Sandrin | 31/03/2017 00:00:00

Pelas ruas de Bento Gonçalves encontro pessoas que acompanham meus textos feitos para o SERRANOSSA, costumam me abordar quase sempre sugerindo assuntos, uns dizem gostar de minhas análises filosóficas e detestarem quando falo de política, outros dizem que eu deveria falar unicamente de política. Interessante essa liberdade que o jornal sempre me deu, quando o ex-diretor Estêvão Zanetti me trouxe a oportunidade de escrever, ele me disse de imediato: “Escreva sobre o que quiser”. Ó doce liberdade com a qual sonham todos que escrevem – sonho esse sempre próximo de se tornar um pesadelo. Explico.

Quando sento para escrever, eu me debruço sobre o mundo, sobre meus anseios e sobre tudo o que observo à minha volta. Pensam vocês, então, que me sobram assuntos toda semana, mas é justamente por poder escrever praticamente sobre qualquer coisa que se torna tão complexo digitar as primeiras linhas aqui. As pessoas se acostumaram com minhas abordagens aleatórias, elas não esperam se decepcionar por duas semanas seguidas, elas sabem que, mesmo não gostando do assunto de hoje, na próxima eu tendo a encontrar outros caminhos dentro desse labirinto de satisfações e insatisfações.

Trato minhas linhas como trabalho, escrevo no mínimo três textos por dia – incluindo finais de semana – ou seja, são no mínimo 21 textos por semana. Vocês podem pensar que um desses textos encaixarei no SERRANOSSA, mas não, não funciona assim. Quando, dez anos atrás, me disseram “escreva sobre o que quiser” firmou-se um pacto de que, não importasse quando, como e onde, eu sempre faria um texto exclusivo.

Já usei textos repetidos em diversos veículos de comunicação, inclusive fiz isso atualmente para uma página social com mais de 13 milhões de seguidores. Enviei a eles um texto que já tinha. Por que essa exclusividade com o SERRA? Porque ele me liga a vocês, ele me liga ao meu começo, ele é minha lembrança de que quando ninguém precisava acreditar em mim ainda assim pessoas acreditaram.

Tenho certeza que muito do que escrevo não é de opinião unânime entre a equipe que faz esse jornal acontecer, tenho certeza de que há pessoas, inclusive dentro do próprio jornal, que não dão a mínima para o meu trabalho, mas ainda assim eu sigo ali, escrevendo, sendo respeitado e sempre sendo 100% publicado. Nunca um texto meu foi editado ou cortado, o SERRANOSSA sempre avalizou minhas opiniões, mesmo quando talvez a maioria do jornal não concordasse com elas.

Em tempos onde pessoas se distanciam por diferenças de opinião eu sigo a escrever com total liberdade a este jornal. O exercício da opinião não converge nunca para a unanimidade. Eu escrevo para o SERRANOSSA porque ele faz parte de minha rotina, porque ele me aproxima da comunidade na qual cresci, porque, apesar de qualquer diferença, nunca nasceu nessa parceria o impedimento.

Há contratos que não podem ser escritos em papel, há vínculos que se desprendem de salários e benefícios. Esse é meu acordo com esse jornal. Em dez anos, jamais sentei com qualquer um ligado ao SERRANOSSA para decidirmos diretrizes e planos de negócio, estive nos escritórios do jornal por não mais que três vezes nesse tempo todo. Nossa relação é líquida, sem formas pré-definidas, mas ainda assim é linda. 

Por isso eu escrevo textos que só serão lidos aqui, por isso o Felipe Sandrin que habita essas páginas só pode ser visto aqui, porque em casa a gente se sente à vontade e, quando um dia eu nessas páginas eu não mais estiver, ainda assim eu terei a lembrança boa que toda criança merece ter, a lembrança de um incrível primeiro lar.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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