Relações de shopping

Por: Felipe Sandrin | 04/07/2017 00:00:00

Qualquer um sabe – mesmo hoje – o quanto laços amorosos dão trabalho. Amar exige uma dedicação constante. Quando esse amor desfruta da liberdade das escolhas então, tais laços requerem um esforço ainda maior. O amor que compõe um relacionamento a dois é construído por muita dedicação e zelo, por perdão e paciência. Mais do que isso o amor necessita vencer a fase do desejo, só é amor quando conseguimos sobreviver às amarras que a vida a dois pode trazer.

Obviamente, em um mundo tão fluido o amor se tornaria objeto raro. Se amar requisitava muito tempo e esforço, nós, seres humanos conectados, necessitávamos algo menos enraizado, algo menos traumático e que fosse menos complicado para nos desvencilharmos. O desejo parecia um ótimo aperitivo para o novo prato principal: a paixão. Mas o desejo tem por si um único objetivo: a destruição. Sim, o desejo busca a todo o momento se realizar e, quando se realiza, acaba.

Enquanto seguíamos na estrada da velocidade, da quebra de barreiras dos espaços percebemos que desejar também dependia de demasiado esforço. O desejo nasce da constância, desejamos na medida em que constantemente alimentamos tais desejos. Desejar, portanto, era menos exaustivo do que amar, mas ainda assim trabalhoso.

As vitrines de shoppings estão em constante mudança, mas, ao contrário do que pensamos, tais mostruários não correm somente atrás das tendências, é necessária a mudança constante para que o consumidor mergulhe na sensação de que, se não adquirir imediatamente, amanhã poderá ser tarde. O que está na vitrine deve ser comprado hoje, imediatamente. Depender do dia seguinte significa a possibilidade de perder. Do amor ao desejo, do desejo ao impulso.

Ao contrário de outras épocas, não mais saímos de nossas casas com objetivos de compra fixados. Andamos entre lojas sem a certeza do que precisamos comprar, rodamos corredores movidos pelo impulso. O passeio passou a produzir a demanda, somos movidos pelo que encontraremos e não mais pelo que já pensávamos necessitar.

Nossos frágeis laços se projetam com muito mais velocidade e em muitas direções. Se não há a construção do desejo, nos libertamos da necessidade de alimentar repetidamente a ideia ao que desejamos. O impulso é confortável, descartável, ele não demanda o esforço de ser carregado na busca de uma lixeira que nos livre do fardo após ser consumido. O impulso, além de descartável, pode ser deixado em cantos e mesas: como em praças de alimentação onde há uma constante sensação de que não precisamos recolher o lixo produzido.

Nossos relacionamentos não fogem às regras da forma como consumimos e nos relacionamos com o mercado. Não é mera coincidência que, na era da comunicação, as pessoas se comuniquem cada vez menos. Não é coincidência que na era do descartar estejamos elevando os relacionamentos à escala dos bens de consumo semiduráveis. 

Há volta? Provavelmente não. A ideia das relações de bolso – fáceis de serem usadas e ainda mais fáceis de serem descartadas – é um produto da própria criação humana, adaptada para que assim fosse. Obviamente que muitos possam considerar os frágeis laços como um retrocesso, mas isso não muda o fato de que ano após ano seguimos aprimorando o descarte dos relacionamentos.

Em um mundo movido por razão e mercado, a ideia do investimento toma as rédeas do envolvimento. Em uma análise simples, relacionamentos profundos custam caro e não compensam o risco do investimento. Talvez pela primeira vez a solidão humana tenha deixado de ser destino e passado a ser escolha.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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