Como é ser uma mulher no Brasil?

Por: Felipe Sandrin | 04/12/2017 00:00:00

A garota/moça/senhora se reúne para uma entrevista de emprego, seu possível empregador quer lhe apresentar a proposta. O encontro é totalmente voltado ao trabalho, há um interesse de ambas as partes. Os dois trocam números de celulares e ela aguarda uma resposta se será contratada. Poucas horas depois, o empregador entra em contato e confirma que a vaga é dela. Nos próximos dias, além de trocarem mensagens sobre o trabalho, o empregador começará a ser mais gentil, elogiará fotos de sua funcionária e abordará outros assuntos não relacionados a trabalho.

Essa história se repete diariamente. A sina do macho alfa que vê toda mulher interessante como uma possível transa. A garota/moça/senhora em questão precisa realmente do emprego, pois há pessoas que dependem dela, há o aluguel a ser pago e as refeições diárias não são baratas. O chefe engraçadinho está se achando gentil, ele delicadamente usa de sua posição para diminuir as chances de levar o famoso corte – palavra que descreve o desinteresse declarado da outra parte.

Há agressores de todos os lados, homens acostumados a bater em mulheres, muitos desses são, inclusive, heróis nacionais. Há jogadores de futebol, atores, políticos, grandes empresários e músicos. A covardia não escolhe profissão e nem quando descoberta é suficiente para acabar com a promissora carreira deles. Há o caso de um ator que agredia sua companheira, ela veio a público e, mesmo diante do absurdo, esse mesmo ator faturou o prêmio de dois milhões de um reality show. Detalhe: ele venceu através do voto popular.

Eu poderia usar essa edição inteira do SERRANOSSA comentando casos assim, de homens que espancam mulheres e ainda assim são admirados nesse país. Por quê? Por que seguimos a fingir que é normal um homem submeter uma mulher à humilhação? Por que achamos normal um chefe dar uma “cantadinha” em sua funcionária?

Observo uma garota entregando panfletos. Toda vez que o semáforo fecha, lá vai ela munida de um sorriso e o habitual obrigado. “Linda”, diz um senhor com seus 70 anos, dois jovens olham descaradamente para a bunda da moça que, sem graça, caminha mais rapidamente em direção à janela de outro carro.

Consulto os registros estaduais do Rio Grande do Sul atrás de números, descubro que Porto Alegre é uma das cidades com os maiores índices de estupro do país. Descubro que o Rio Grande do Sul registra quatro casos de estupro por dia. Quatro por dia! Sinto-me inconsolável. Imagino minha mãe, uma namorada passando por isso. Por um segundo, alimento um ódio que me faz querer comprar uma arma e sair à noite por aí, vagando atrás desses vermes ceifadores de vidas e almas. Mas então uma mágica acontece, dentre os números percebo quantas mulheres se tornaram delegadas no último ano, quantas mulheres se tornaram juízas, quantas incríveis mulheres começam a ocupar os mais importantes cargos.

É isso. A esperança vem dessas mulheres que estudam e driblam os preconceitos. Essas mulheres que não se abalam quando ganham menos que um homem, nem se abatem com qualquer discriminação. Elas são maiores que isso, elas conhecem suas capacidades e entendem perfeitamente que a grande vantagem desse mundo capitalista é que ele valoriza os potenciais de quem produz mais. Mulheres são “multifocadas”, elas levam vantagem sobre os homens quando o assunto é desempenho de múltiplas funções. Em um mundo que exige velocidade, quer vantagem melhor que essa?

Vejo no horizonte um alívio, um futuro em que pessoas não debatem idiotamente o feminismo ou se a mulher tem o direito de não ser estuprada. Vejo um futuro em que mulheres inteligentes e dedicadas instituíram um estado de direito no qual simplesmente as leis sejam cumpridas e os criminosos agressores e estupradores sejam punidos.

Mesmo que nos pareça um dever, um homem não precisa ser o defensor de uma mulher, mas é fundamental que lhes sejam dadas as condições para que, como iguais, elas possam se defenderem por elas mesmas.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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