Noticiar ou não? Um dilema constante

Por: Greice Scotton Locatelli | 04/12/2017 00:00:00

Dilemas são extremamente comuns no jornalismo. Como formadores de opinião, estamos sempre nos autoquestionando sobre o que deve ou não ser divulgado. E nessa filtragem estão incluídas perguntas das mais diversas. Notícias envolvendo segurança pública figuram entre as principais nesse contexto. Tendo uma informação, devemos divulgá-la ou não? A resposta óbvia seria “sim”, até porque a informação é a base para tudo que um jornalista faz e quando passamos a não repassá-la adiante, nossa função na sociedade não tem sentido. Mas há um outro lado dessa moeda que só quem convive nos bastidores do jornalismo conhece: os impactos que determinadas publicações podem ter.

Aprendi uma lição valiosa muito cedo, logo no início da minha carreira quando, ao fazer uma reportagem dentro do Presídio, um dos presos veio me cumprimentar por uma determinada matéria. Recordo de ter ficado meio chocada. Inexperiente, jamais havia passado pela minha cabeça que pessoas detidas por um crime também têm acesso a jornais, rádio, televisão. Alguns anos depois, uma crítica que inicialmente me deixou bastante abalada veio a se tornar uma grande lição. Querendo mostrar eficiência, eu e meu colega relatamos em detalhes como um grupo de criminosos havia emboscado um carro-forte. Trabalhávamos, na época, no Grupo RBS e a matéria teve uma repercussão enorme. Um dos leitores ironizou, parabenizando o veículo por ter apontado soluções para todos os problemas que os assaltantes tiveram, como se houvéssemos ensinado publicamente como minimizar imprevistos. Não foi a intenção, mas aconteceu.

Nesta semana, durante uma palestra para alunos do Ensino Médio no Colégio Mutirão, um dos professores me fez reviver esses dilemas antigos ao me questionar por que não evitávamos publicar notícias ruins. Eis uma questão extremamente válida, que faz com que todos os profissionais da comunicação que prezam em bem desempenhar o seu papel se fazem: como minimizar o impacto negativo dos acontecimentos, sem deixar de alertar.

Citei como exemplo um assalto violento ocorrido no último final de semana, quando dois jovens foram abordados ao saírem de um bar na mesma avenida onde fica o colégio. Uma das vítimas foi atingida na cabeça com uma garrafa e a outra levou uma facada nas costas. Recebo uma informação dessas e como jornalista preciso decidir: divulgo para alertar as pessoas de que andar por essa região à noite pode ser perigoso ou deixo de divulgar para mascarar a realidade e fingir que a cidade está segura?

Há casos e casos e nem sempre a resposta é fácil. Já aconteceu várias vezes: há alguns anos soubemos de fonte segura que, na época, Bento tinha apenas uma viatura e quatro policiais de plantão para atender toda a cidade durante o final de semana. A decisão foi não divulgarmos. Eu me lembrei da cena do presídio e calculei o impacto que uma informação dessas teria no sentido de incentivar os criminosos a agirem por saber que não haveria fiscalização ou efetivo suficiente para atender e usei isso como argumento. Mas nem por isso a informação se perdeu: começou-se uma campanha para mobilizar a comunidade para consertar as viaturas e melhorar o efetivo. Trabalho de formiguinha, mas pelo menos tentamos, enquanto jornalistas, fazer a nossa parte por uma sociedade mais segura.

Noticiar ou não noticiar é um dilema complexo. Mas seguimos, edição após edição, tentando equilibrar os assuntos para que haja um meio-termo: nem fingir que tudo é um mar de rosas, nem tornar a realidade um enredo de filme de terror.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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