Ansiedade e angústia: que mar navega a baleia-azul

Por: Felipe Sandrin | 27/04/2017 00:00:00

Os pais entram em um restaurante acompanhados de sua filha, a garotinha não tem mais do que quatro anos. De onde estou, consigo ouvir o pai perguntando carinhosamente: “onde você quer sentar, amor?”. Ele não questionava a esposa, mas, sim, a criança. Ser um bom pai e uma boa mãe nos tempos atuais é isso? 
O garotinho envia mensagens ao celular da mãe dizendo estar com vontade de comer pudim. Ela responde que ao sair do trabalho irá comprar e algum tempo depois cumpre sua promessa. Coisa simples, quem hoje em dia, afinal, teria tempo para durante a semana preparar uma sobremesa? Precisamos conciliar tantas coisas, é tanto trabalho, contas por pagar e planos por ainda realizar. Trabalhamos pelo futuro dos filhos. Bom argumento.
Quando então uma criança pratica o exercício da paciência? Onde uma criança aprende a lidar com suas ansiedades? Antigamente ajudávamos a mãe a preparar a sobremesa, lambíamos panelas, esperávamos esquentar e esfriar, por vezes levava um dia inteiro para que finalmente pudéssemos nos deliciar e matar os tais desejos. Aprender a esperar e lidar com a ansiedade, entender que querer não se faz suficiente ao realizar. Quão cedo uma criança de antigamente aprendia que o mundo não era um lugar pronto a realizar nossas vontades?
Cresceu a garotinha que aos quatro anos escolhia em que mesa a família iria sentar, aquela garotinha que chorava pedindo o celular e os pais, a fim de evitar constrangimento em um restaurante lotado, cediam. Cresceu o garotinho que pedia doces para a mãe e, como que magicamente, via-os surgir na cozinha. Cresceu sem aprender a lidar com a angústia da vida, sem provar o verdadeiro sentimento de um mundo que faz tudo nos escorrer aos dedos.
Mimar não é excesso de amor, mimar é a preguiça de realmente preparar a criança para o mundo. Como lida a garota mimada com o namoradinho que aos 15 anos resolveu trocá-la por outra garota da escola? Como lida o garotinho que tão poucos nãos escutou dos pais ao ser recusado em um trabalho? Como lidarão as crianças do hoje imediato com o amanhã que procrastina sem dó ao que julgamos fundamental em nossas vidas?
Quando escuto falar de jogos como o da baleia-azul, que levam crianças e adolescente a se suicidarem, logo penso nas etapas fundamentais que essas crianças perderam, no aprendizado doloroso aos quais todos deveriam ser subordinados. Quando a mãe deixa de amamentar a criança, nasce aí talvez o primeiro grande trauma daquele ser. É nesse momento que começa o processo de entendimento de todos nós: o mundo não está aqui para realizar as nossas vontades.
Ao contrário do que por muito tempo pensávamos, não estávamos criando a geração paz e amor. Satisfazer as vontades dos filhos não é por si um ato de amor. Amar o filho é prepará-lo para o mundo, dar-lhe forças para que aprenda a voar em condições adversas, pois a vida é isso: ventos fortes e temporais na esquina.
Ou os pais reaprendem a ensinar os filhos sobre o mundo que eles vão ter que encarar ou o número de suicídios e pessoas necessitando de remédios para depressão só irá aumentar. 

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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