Vidinhas perfeitas

Por: Greice Scotton Locatelli | 27/04/2017 00:00:00

Você liga a televisão e, sem demora, surge um comercial – geralmente de margarina – mostrando como a família perfeita seria. Uma bela manhã ensolarada, com pessoas bem vestidas e sorridentes ao redor de uma mesa ornamentada. O pai lendo um jornal, a mãe servindo o café para as crianças, que aguardam obedientes e comportadas. Saudável é o adjetivo que define tudo que está milimetricamente colocado: frutas, sucos, cereais. Todo mundo teve uma bela noite de sono e terá um dia grandioso pela frente. Uma felicidade que não cabe em si. Parece o Facebook. Sério, toda vez que vejo a minha timeline eu me lembro desses comerciais de grandes famílias felizes, tão irreais quanto 99,9% das postagens nas redes sociais. Ou vai dizer que você é feliz o tempo todo tal qual o seu perfil mostra?
Claro que todo mundo quer mostrar somente o seu melhor lado. Fazemos isso com tudo na vida: a maquiagem que esconde as sardas, aquele sorriso que mascara a raiva que sentimos por uma determinada pessoa, as postagens nas redes sociais de momentos que podem nem ter sido tão legais assim, mas que bem “vendidos” renderão vários likes. Só que isso não é vida real e, pior, em longo prazo tem um efeito psicológico que pode afetar pessoas mais fragilizadas emocionalmente. 
Ao contrário do que os comerciais de margarina mostram, existem conflitos e tensões que nos impedem de dormir e acordar sempre bem. Dias corridos, difíceis, em que a vontade de sumir impera. Outros bons, com notícias bacanas e leves e sorrisos sinceros. A vida é uma montanha-russa, com altos e baixos constantes. Simples assim. Também não existem regras sociais tão bem definidas. Ora, quem disse que família é pai, mãe e dois filhos simpáticos? Hoje em dia, família é qualquer grupo de pessoas que se queira bem, sem necessariamente ter laços de sangue. E família feliz é aquela que consegue superar as pequenas e grandes dificuldades do dia a dia e ainda assim se amar.
A profissão de jornalista permite que tenhamos contato com os mais variados tipos de “personagens” da vida real e, como retratadores das suas dificuldades, somos também uma espécie de termômetro de como andam os anseios da sociedade. O que percebemos com isso? Uma sensação de tristeza generalizada, de jovens, adultos e idosos cada vez mais fechados em seus mundos, fartos de notícias ruins. 
Até que ponto essa “vida de comercial de margarina” que tanto se espalha no Facebook não pode ser uma razão para tanta gente desesperançosa, inclusive os jovens? 
Um artigo publicado recentemente pela médica pediatra e professora Dra. Ana Escobar chamou minha atenção ao analisar como esse comportamento virtual pode explicar parte dessa angústia que aflige crianças e adolescentes, principalmente, mas que também afeta adultos em geral. “As centenas de ‘amigos’ que fazem nas redes sociais não dão conta de segurar o isolamento e a solidão que muitos jovens sentem. De fato, nas redes sociais, a regra geral é travestir-se no melhor ‘personagem’ de si mesmo, com a melhor foto, em que todos aparecem bem-sucedidos, fortes, vigorosos, vencedores, passando pelo mundo com uma felicidade que nunca terá fim. Não é nada fácil sair do personagem criado e encarar o próprio ‘eu’ frente a frente, tal como é: real, cotidiano, com tristezas, sofrimentos, pontos fracos, complexos e angústias tão naturais de todos os seres humanos. Mais difícil ainda talvez seja conversar com pessoas, amigos ou família sobre estes assuntos. A vida é muito corrida e ninguém parece querer saber de problemas”. 
Não tenho uma fórmula mágica para resolver esse dilema, mas sei que a minha decisão de diminuir tempo e energia gastos em redes sociais tem me ajudado a manter o foco na vida real e, com isso, priorizar o que realmente importa: os pequenos momentos felizes que nos fazem ter força para superar as horas difíceis que normalmente a vida nos impõe.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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