Pele de papel

Por: Greice Scotton Locatelli | 05/04/2017 00:00:00

Chorei calada ao ler a reportagem que a Carina Furlanetto produziu sobre uma jovem senhora que, depois de criar os filhos e netos, decidiu aprender a ler e escrever. Por alguns instantes, minha mente viajou no tempo e eu lembrei da minha avó e de uma das coisas de que mais me arrependo na vida: não ter insistido em ensiná-la a ler e escrever. Fui para casa, tomei um banho e, em frente ao espelho, encarei a borboleta lilás tatuada sob um caminho de estrelas nas minhas costas. Há muito tempo eu não sentia esse gosto amargo da saudade, mas ela continua ali, tão dolorida como sempre. 
Foi com a dona Ircy que eu aprendi a maioria das coisas que sei hoje, desde afazeres domésticos até como ser uma pessoa de bom caráter. Meus pais sempre trabalharam muito e foi ela quem me criou, à sua maneira: simples e sincera. A dona Ircy nos deixou fisicamente em 2009, mas sinto sua presença até hoje.
Minha avó passou seus últimos dias de vida em uma cama de hospital, mais precisamente na cama da Unidade de Terapia Intensiva. Bem perto, aliás, de onde meu avô, Sérgido, morreu anos antes. Perto demais para alguém que, quando criança, memorizou aqueles corredores como o pior lugar do mundo. Mas apesar da gravidade, ela morreu com a serenidade estampada em seu rosto, marcado pelos 83 anos de uma vida sofrida. Pela primeira vez, ela parecia conformada e feliz.
A dona Ircy morreu tranquila, sem medo, como alguém aliviado por estar partindo. Talvez quisesse apenas rever meu avô e meu tio, especialmente. Talvez tivesse cansada da indignidade que é a velhice. Sim, envelhecer pode fazer com que percamos a dignidade. Nosso corpo já não é capaz de acompanhar nossa mente e tudo se torna mais lento, em um mundo onde a evolução dita justamente o contrário. Tornamo-nos dependentes dos outros para fazer até as coisas mais insignificantes. 
Poucas pessoas têm paciência e leveza de espírito para lidar com o passar do tempo. Minha vó tinha. Podia ter muitos defeitos como a maioria de nós, mas tinha uma leveza inconfundível na alma. Soube rir até seu último suspiro, apesar da dor que a acompanhava havia décadas. Alternou momentos de uma lucidez absurdamente real com um mundo imaginário onde luzes piscavam o tempo todo e borboletas perambulavam pelo quarto como que festejando algo – eis o significado da minha tatuagem. 
Hoje penso que nos seus últimos dias houve momentos em que a lucidez dela superou a minha. Justo eu que me orgulhava da minha maturidade e de ser o pilar mais forte da família. A única que ouviu atentamente cada palavra cruel dos médicos, a cada constatação de piora, sem derramar uma lágrima na frente dela. Mantive-me tão centrada a ponto de parecer fria. Mas engana-se quem pensa que eu fui forte o tempo todo: houve horas em que desabei, assustada não apenas com a perspectiva da morte dela, mas com o medo de estar perdendo o controle sobre mim mesma. Eu estava, enfim, impotente. 
A apatia que se abateu sobre mim naqueles dias teve uma única causa: solidão. Nunca me senti tão cercada de pessoas e ao mesmo tempo tão sozinha, como se minha alma tivesse saído do meu corpo e eu tivesse me tornado uma mera marionete da rotina. O primeiro e mais cruel dos diagnósticos que nos tiraram o sono naquela primavera eu ouvi sozinha. Eu, a médica e minha vó, em uma tarde em que ela galopava na poltrona imaginando ser um cavalo e ria feito um bebê descobrindo o mundo. 
Foram dias tristes e vazios, que deixaram profundas marcas. Em uma tarde de quinta-feira, eu estava sentada ao lado da cama, acariciando seu braço marcado por hematomas – qualquer encostada de leve deixa manchas avermelhadas na pele de um idoso. A pele da minha vó parecia papel-crepom: enrugado e frágil, como algo prestes a se desmanchar. Era o dia 4 de dezembro, dia do aniversário dela. Desde então nunca mais olhei para a pele dos meus braços e para a vida da mesma maneira.
“Dizem que o tempo é o remédio para tudo, o tempo faz a gente esquecer. Há pessoas que esquecem depressa, outras apenas fingem que não se lembram mais”. Eu só queria voltar no tempo e ensiná-la a escrever, mesmo sem saber ao certo como fazê-lo. É como se isso pudesse ter representado a gratidão que eu sinto pelo que me tornei graças a ela.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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