Culpados

Por: Felipe Sandrin | 05/05/2017 00:00:00

Greve dos “trabalhadores”. Decido não me ater a preconceitos oriundos da simples montagem de ideias. Subo em meu meio de transporte – uma bicicleta – e lá vou eu participar do ato. Acho que deprimente seria uma boa palavra para ser usada diante do que vejo. O meu primeiro pensamento é de indignação: como aquelas pessoas podem falar tanta bobagem? Sério, é inacreditável!

Já se passaram uns trinta minutos de caminhada e lá estou eu. Bem verdade, quase desisti algumas vezes, mas e se fosse meu preconceito que não me permitia ver com clareza tal ato? Decido continuar naquela marcha que, até então, a cada passo parece se tornar mais absurda.

Já faz mais de uma hora que acompanho aquelas pessoas, finalmente começo a sentir uma mudança dentro de mim. O que era engraçado e deprimente começa a se tornar digno de pena. Meu deus, aquelas pessoas realmente acreditam no que está sendo dito. Começo a me questionar sobre o Brasil que foi construído nas últimas décadas, nas vidas ceifadas diante da negligência do ensino de qualidade. Sim, eu estou cercado por órfãos de intelecto.

O que é, afinal, um trabalhador, de quantas maneiras alguém pode trabalhar por um país? Os livros de história, a filosofia, esse texto que escrevo... tudo isso surge de um trabalhador? Se pensarmos pelo ponto de vista do proletariado, de alguém que vende sua força, fica mais fácil perceber que, para existirem os ditos “intelectuais”, devem existir aqueles que enchem a geladeira dessas pessoas de comida. Os livros não são escritos por trabalhadores braçais, mas as pessoas que os escrevem são, sim, alimentadas pela mão dos trabalhadores.

A condição para o pensamento é algo pelo que o homem vem lutando desde os primórdios. Uma sociedade que pensa é uma sociedade mais estável, mais justa e mais graciosa aos olhos de todos esses que se dizem seres pensantes. Como, então, pode existir harmonia quando um país forma tantos seres não pensantes? Sério, vocês já foram a algum ato socialista de extrema esquerda? É de dar pena. É impossível uma pessoa com a mínima noção das coisas estar lá no meio e não se lamentar.

Sindicatos para todos os lados, um amontoado de gente sem a mínima condição de gerir uma família, quem dirá gerir um amontoado de outras pessoas. É sério: os sindicatos precisam ser extintos nesse país, só não concordam com isso os hipócritas que vivem desse dinheiro roubado de tantos verdadeiros trabalhadores. Os sindicatos precisam acabar.

A decadência não tem limites e as pessoas estão perdidas. A maioria dessas não pede muito: chegar em casa, ter uma comida gostosa, um banho quente e uma cabeça boa o suficiente para que possam transar com a companheira(o).

É isso que a maioria quer, paz para trabalhar, chegar em casa após um dia exaustivo e estarem tranquilos quanto às contas que chegarão no fim do mês. A maioria não quer saber de direita ou esquerda, sobre o capitalismo ou o socialismo. Tudo que o povo quer é a liberdade de ir e vir.

Quanto tempo desperdiçamos criando essa massa burra de pessoas perdidas que se deixam guiar por quem fala mais alto! Quanto tempo gasto, quanto futuro jogado no lixo!

Nem todos nesse país são trabalhadores, mas todos certamente são pobres – alguns de bolso e outros, de alma. Não são poucos os culpados, aliás, desse Brasil que não pensa “todos têm culpa”.

 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 732
18/10/2019 07:58:16
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA