Transtornos bons de noticiar

Por: Greice Scotton Locatelli | 05/11/2017 00:00:00

Procrastinação: substantivo feminino que representa o ato ou efeito de procrastinar e que também significa adiamento, demora ou delonga. Procrastinar é um verbo que resume bem a atitude quando o assunto são obras públicas. Seja por desleixo de quem governa, por dificuldades orçamentárias ou por incompetência técnica, o fato é que tudo demora muito para sair do papel no Brasil. E não é diferente por aqui. 
Sempre fui meio do tipo que só acredita vendo e isso se tornou ainda mais evidente depois que comecei a trabalhar com jornalismo. São tantas promessas em se tratando de política que é bem fácil perder as contas. Algumas, pela gravidade da demanda ou por fazerem parte da nossa rotina, acabam sendo lembradas com uma frequência maior, ao mesmo tempo em que outras se perdem no passar dos dias sem que nenhuma atitude seja tomada. Enquanto isso, o dinheiro que os governos arrecadam a partir da absurda carga de impostos que pagamos vai igualmente se perdendo no mar de corrupção que assola o país desde sempre.
Entretanto, de tempos em tempos surgem alguns exemplos que fazem reascender a esperança. Um dos mais recentes é a construção da nova rotatória no entroncamento da BR-470 com a RSC-453, popularmente conhecido como trevo da Telasul, em Garibaldi. Para fins de preservação da autoestima – ninguém gosta de perceber que está envelhecendo –, seria melhor nem lembrar há quantos anos eu noticio a necessidade de mudanças drásticas naquele local. Mas para fins de argumento, é importante frisar. Esse trevo foi tema de uma das primeiras reportagens da minha carreira, no final da década de 1990. Ou seja, é bem anterior a isso. Desde então, perdi as contas de quantas vezes o assunto apareceu na minha pauta de entrevistas. 
Confesso que duvidei que chegaria o dia em que eu veria máquinas escavando por lá. Embora ainda não seja o ideal – um viaduto tal qual foi feito no entroncamento com a ERS-446, em São Vendelino representaria a solução definitiva –, o fato de anunciarem a construção de uma nova rotatória e de o projeto não ficar restrito à teoria é um alento. Eu passo todo dia pelo local e ver caminhões e operários trabalhando firme é um alívio. Como jornalista sei muito bem quantos acidentes fotografei ali, quantas pessoas mortas ou feridas e quantos transtornos a soma de uma obra mal pensada com um aumento no fluxo de trânsito pode trazer. Como motorista, sei muito bem como tentar cruzar aquele trevo em segurança pode ser difícil.
Na última sexta-feira, enquanto conversava com o engenheiro Adalberto Jurach, do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), fiz questão de perguntar se havia garantias quanto à provisão de recursos para o término da obra (leia a reportagem completa clicando aqui). Dei prioridade para essa questão por entender que, pior do que um projeto não sair do papel é sair e não ser concluído. Ele me pareceu bem seguro quanto à conclusão, informando que os recursos são repassados mensalmente e que o cronograma está dentro do prazo previsto. Talvez, de minha parte, esse “pé atrás” seja fruto de muito tempo noticiando projetos inacabados, com orçamento mal calculados. Ou seja simplesmente consequência desse meu jeito de “ver para crer”. De qualquer forma, espero, como jornalista e cidadã, que o canteiro de obras que esse trecho da BR-470 se tornou siga assim até a metade do ano, quando a nova rotatória será entregue. É o tipo de transtorno bom de noticiar.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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