De graça e com graça. Eu faria tudo de novo

Por: Felipe Sandrin | 30/10/2015 00:00:00

Eu vi tanto talento ficar pelo caminho. Por inúmeras vezes, vi talentos que já nasciam mortos. Gente com potencial enorme para desenvolver o que gostava de fazer, mas com força de vontade escassa. 

Não é difícil reconhecer quem desistiu da caminhada. Essas pessoas vêm com o mesmo discurso de sempre, dizem se sentir exploradas e não querer mais trabalhar de graça. Aliás, trabalhar de graça? Isso existe?

“Quanto você recebe para escrever aos jornais, Felipe?” Essa é uma das perguntas que mais ouvi até hoje e a qual gosto de responder sem enrolação: “escrevo de graça”. E como me sinto em relação a isso? Realizado. Sim, pois se posso fazer algo de graça, significa que encontrei o que realmente gosto de fazer.

Em um de meus primeiros espaços, no qual escrevia sobre futebol duas vezes por semana, chegamos a incrível marca de seis milhões de acessos. A proposta era simples, mas inovadora: pela primeira vez, cronistas escreveriam textos assumindo seus clubes. Se hoje isso é normal, acredite, até poucos anos atrás, era raro. Enfim, por mais de dois anos enviei, religiosamente, meus textos para a página. Nessa época, eu tinha outro trabalho e, várias vezes na semana, meu tempo de sono se limitava a, no máximo, quatro horas. Quanto eu recebia para escrever? Nada.

Agora, deixem-me pular para um segundo capítulo de minha vida, no qual eu lanço um livro bancado por uma ótima editora de Porto Alegre, vendo quatro mil exemplares, recebo verbas de 20 patrocinadores, sou convidado a mais de 30 feiras e eventos – na maioria recebendo para comparecer; gravo um CD no qual dois jogadores de futebol bancam os valores totais etc. etc. Agora, deixem-me voltar ao lance de escrever de graça sobre futebol. É nesse site que me encontram e é o dono desse site o primeiro cara a depositar dinheiro na minha conta como patrocinador. Agora, eu pergunto: eu escrevi de graça, afinal?

Muitas vezes, é isso que as pessoas não entendem. Elas vivem repetindo como deveriam ser valorizadas, mas esse é o tipo de comentário que mais as desvaloriza. Se está cansado do que faz, parte para outra. Se dói tanto assim “trabalhar de graça”, procure outra coisa para fazer e pare de chorar em frente ao espelho dizendo que seu talento não é reconhecido. Você sinceramente imagina alguém que venceu dizendo “ninguém me dá valor. Não aguento mais ganhar pouco”?Quando comecei a cantar, diziam: “não canta nada”.

Quando comecei a escrever, diziam: “não sabe pontuar e troca as letras”. Eles não estavam errados. Eu sabia disso, aceitei que aquilo que pessoas talentosas levariam dez anos para aprender, eu levaria o dobro. Logo, a escolha que tive foi a de começar cedo, de graça, sem esperar nada. Então, enquanto os talentosos foram parando por não se sentirem valorizados, eu segui, sem esperar nada, pois eu imaginava que, por não ter talento, eu levaria muito mais tempo para colher resultados.

E aí está um dos grandes segredos: não depender dos resultados. Ou você gosta do que faz e faz de graça com prazer, ou você acha que gosta do que faz e sempre que perceber não gostar realmente disso você diz não se sentir valorizado.

Nada atravanca mais um caminho do que a inveja, e a inveja é fácil de se reconhecer: ela mora entre o querer e o realizar. Quando você passa mais tempo pensando e falando sobre aquilo que não tem, fica fácil perceber que todo talento do mundo não lhe teria sido suficiente.

Se gosta de ficar chorando ao invés de ir atrás, então é hora de partir para outra. Talvez valha investir no drama.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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