Nem pontes, nem terra firme

Por: Felipe Sandrin | 26/05/2017 00:00:00

Recebi o seguinte e-mail nesta semana:

“Bom dia Felipe. Eu te acompanho no Facebook e ando lendo bastante teus textos, por isso resolvi contar minha história e te pedir um grande favor. Eu conheci a mulher da minha vida depois de ter passado por uma grande decepção. Fui casado por cinco anos até que o casamento desabou, na época também perdi meu emprego e entrei em uma profunda depressão, mas foi aí que a Adriana entrou na minha vida. Eu já estava separado havia cinco meses e a conheci por acaso, ela foi tão maravilhosa comigo que aos poucos levantou minha autoestima e me fez sair do buraco em que estava.
Enfim, tudo ia bem até que ela descobriu o verdadeiro motivo que levou ao fim de meu primeiro casamento: eu era viciado em drogas. Logo no início ela me apoiou, aguentou firme minha bipolaridade que quase sempre acabava em brigas e ofensas, porém, isso se tornava cada vez mais frequente e ela obviamente não aguentou. Sem ela, fiquei sem chão, não cumpria mais minhas obrigações e toda aquela instabilidade me fez perder novamente o emprego e sair dos trilhos. Quando cheguei ao limite e vendo que a tinha perdido, resolvi me internar. Passei mais de um ano em uma clínica de onde fui liberado apenas quando estava recuperado. É claro que a primeira coisa que fiz ao me livrar do vício maldito foi procurar por ela, mas infelizmente ela não quis me ver nem ouvir. Foi então que pensei em você, sei que ela acompanha seus textos e talvez se você escrevesse algo pedindo para ela me dar uma chance, talvez eu pudesse mostrar a ela o quanto mudei.”

Bem, esse parece o tipo de e-mail trágico que tornamos público devido a forma como ele nos impressiona e toca. “É um e-mail exceção”, muitos devem pensar. Infelizmente não. Infelizmente esse é um dos tipos mais comuns de e-mail que recebo e por isso o tornei público. Obviamente respondi a ele, mas enquanto o fazia notei que também conversava comigo mesmo.

“Obrigado por dividir comigo sua história, mas creio que você não precise de um texto, talvez você precise é abrir os olhos para como a vida age. Talvez essa mulher, esse amor, surgiu para livrá-lo desse demônio que chamamos de vício. Em certa época de minha vida, eu mudei de cidade pelo simples fato de não querer morar próximo da pessoa que havia me magoado, graças a ela descobri um novo lugar que hoje posso chamar de lar. Há pessoas, há amores que surgem em nossa vida não para seguirem conosco, mas, sim, para que nos ajudem a cruzar outras pontes.  Você sempre estará na vida dela e ela sempre estará na sua. Não veja isso como um adeus, é apenas um até breve. Você fez o que pôde para estar novamente junto dela e nesse processo você se tornou um ser humano melhor, por isso você deve dar a ela o direito de escolha, você deve agradecê-la e deixá-la livre. Se um dia ela quiser voltar, ela o encontrará, ela saberá o caminho. Um grande abraço.”

Nós achamos que os planos de vida nos pertencem, que temos controle sobre os caminhos e que sabiamente interpretamos cada novo passo. Besteira! Nem todo amor nasce para ser eterno. Nem toda decepção ensina e nem todo ser está pronto para aprender. Não há um tempo específico para as alegrias e para as dores, pois tudo caminha junto. Tantas vezes pensei ter encontrado algo que ficaria para sempre em minha vida e me enganei. Tantas vezes achei que algo passaria, mas hoje olho para o lado e aquilo continua comigo.
Nem nossos olhos, nem nosso coração são treinados para distinguir pontes e terra firme. E talvez essa seja uma das maiores belezas da vida.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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