A beleza está na falta

Por: Felipe Sandrin | 06/02/2017 00:00:00

Você acorda e, ao abrir a porta, vê um dia cinza. Pela janela, enquanto almoça, vê um dia cinza. Ao final da tarde, retorna para casa sob um dia cinza. Há quem goste? Claro, há exceções, gente que prefere dias cinza. Mas o que provam as exceções? A regra. E a regra é clara: dias cinza são tristes.

Pela janela do hotel, contemplo o cenário da nossa Serra Gaúcha. Bento Gonçalves parece até bela em meio à neblina e ao clima quente do quarto que me separa por tijolos e vidro da fria realidade que cobre a cidade lá fora. Mas as pessoas que encontro pela rua já não me deixam enganar: todos são mais tristes diante do céu pálido do inverno.

A beleza está em todos os lugares, inclusive na feiura. O problema é que ver beleza no que é feio é para poucos e, mesmo os que são tão hábeis, ainda assim tendem a ter um limite para suportar o feio e sua escondida beleza.

Detesto as manhãs, se posso nada fazer nelas, eu nada faço. Se o telefone toca e insinuam “Que voz de sono!”, a resposta é sempre sincera: sim, eu estava dormindo. Detesto as manhãs, pois elas geralmente abrigam o céu cinza. E nada contra o cinza, o problema é a transformação que essa cor causa nas pessoas.

“Ah, mas eu amo o vinho, a lareira, as roupas charmosas de inverno”. Sim, isso qualquer pessoa pode amar, mas não estou falando sobre como fugimos desse inferno de tempo fechado, estou me referindo, sim, aos próprios dias fechados e os seus súditos mal-humorados que surgem como cegos portadores de tristezas.

Todo ano tem, mas eu nunca me acostumo. Gente que tosse, que assoa o nariz em meio à conversa, que reclama de tudo sem parar. O pinhão, a fumaça do fogão à lenha e o jantar de sábado regado a vinho, nada disso ameniza o inferno astral desses dias cinza.

Se você acha que é exagero, perceba os números: os medicamentos antidepressivos disparam nas vendas, os suicídios crescem e as ocorrências que registram agressões no trânsito quase dobram. Quer saber outra coisa terrível que surge junto ao céu cinzento? Os shoppings de Caxias do Sul ficam lotados... de bento-gonçalvenses. Sério, tem que estar extremamente deprimido para ir aos shoppings de Caxias.

Mas lá vamos nós, sobreviver a mais um inverno melancólico: inverno, inferno, sempre achei engraçado o jeito que essas duas palavras se parecem, são como irmãs gêmeas. Mas admiro profundamente quem consegue, nesses piores meses, ver o colorido. Gente que sorri nos piores dias é artigo raro, deve ser exaltada junto ao altar do “me empreste seu ânimo”.

O que podemos tirar de melhor desses piores dias? A mensagem de que tudo passa: o céu desaba hoje para abrir azul no mês que vem. Às vezes demora até a chuva ir embora, por vezes precisaremos desenhar uma nova realidade cheia de umidade, frio e chuva. Afinal, esse céu cinza que nos altera o humor é o mesmo céu azul, só que de outra cor.

Não precisamos suportar esses depressivos dias, o que precisamos é entender que os dias bons sempre voltam.

Só lembramos da dádiva de um pôr do sol quando, por muito tempo, contemplamos um céu negro e sem cor. A beleza está mais na falta do que propriamente na presença.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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