Que tolo eu fui

Por: Felipe Sandrin | 06/09/2017 00:00:00

Em meio à savana, um bando de cervos, desajeitados e frágeis, aparentemente um alvo fácil aos leões, porém, apenas um a cada trinta ataques será vencido pelos imponentes felinos. Sobre a flor, uma joaninha, uma forma estranha quando pensamos na dinâmica que exige o voo, mas essa joaninha voa, decola e eteriza magistralmente parecendo contrariar a física.
Há um círculo de pessoas que ouvem atentamente alguém ao centro falar, sou eu, estou aí lançando meu terceiro livro. Enquanto discurso e agradeço lembro-me de minha dislexia, lembro-me dos dias que acordo e não sei aonde vai o acento na palavra ‘voce’. Três livros lançados por mim, uma pessoa condenada a nunca conseguir memorizar coisas tão simples ligadas à nossa língua portuguesa. Isso me faz um vencedor? Talvez alguns vejam assim, mas bem verdade eu sinto que, se soubesse dessa doença chamada dislexia durante a adolescência, é bem provável que eu teria desistido de escrever.
Quantas coisas praticamente impossíveis se realizaram justamente porque quem o fez não sabia que aquilo era impossível? Um cervo quase sempre escapa ao ataque dos predadores, talvez pudesse se ver ao longe, ver o quão desajeitado é e o quão imponente é aquele que irá caçá-lo, é bem provável que o pobre animal não lutasse para vencer e assim jamais vencesse. E se uma joaninha pudesse comparar seu design ao de outros animais que voam tão majestosamente será que ela arriscaria seus primeiros voos?
Somos todos limitados, desastrados para quase tudo, mas também somos todos bons em alguma coisa. Talvez você seja bom em não desistir: e há qualidade maior do que a coragem? A coragem é o primeiro passo de todas as grandezas, pois só descobrimos uma capacidade quando temos coragem para arriscar.
A criança sonha ser jogadora de basquete, mal sabe que no futuro sua altura máxima será de 1,60m. Boba ela insiste, ela treina, ela se esforça. Um dia o mundo a derrota, ela percebe que nunca poderá ser aquele fenomenal jogador que sonhava, mas vejo só, poucas pessoas saltam tão alto quanto esse adulto que quando criança tanto se esforçou pelo sonho que pensava ser possível. E a criança que jogava pedras mirando a lua achando que um dia a acertaria? É claro que nunca conseguiu, mas não há ninguém na cidade com braços mais fortes do que aquele adulto que quando criança sonhava com o impossível mirando a lua.
Somos o acaso. Somos a insistência diante o que não sabíamos ser impossível. Somos aquele que não desistiu porque ninguém lhe avisou que seria tão difícil. A realidade é importante, ela será apoio diante das decepções de uma vida que entrega poucas facilidades. Agora, o acreditar, é isso que molda as grandes conquistas, é assim que nascem as mais incríveis histórias, é assim que pessoas passam a se inspirar em outras pessoas, onde seres humanos limitados passam a admirar outros seres limitados a ponto de esquecermos todos os defeitos e vermos unicamente a qualidade que torna aquele ser notável.
Se nossos sonhos de infância são frágeis castelos de cartas, crescer nada mais é do que uma tempestade. Mas e quem sobrevive à tempestade? O que essa pessoa se torna ao sair de um tormento, quantas outras pessoas e sonhos ela motivará?
Há muitas coisas impossíveis nesta vida, mas quantas mais já existiram antes que alguém as tornasse possíveis?
Existiu um tempo no qual nada crescia na mesma terra em que hoje tudo cresce. Essa é a mágica de nossa existência, não saber, mas ainda assim realizar.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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