As pessoas querem ver você bem, mas nunca melhor do que elas

Por: Felipe Sandrin | 16/06/2017 00:00:00

Assim tenho visto ditas amizades desabarem. Pessoas que agem mais como cúmplices do que como amigas, que em momentos bons surgem como se fossem estar sempre presentes, mas que desapare­cem tão rápido quanto chegaram.

Não sou bom para falar sobre amizades que acabam, nunca re­almente perdi um grande amigo, mas posso falar sobre o que vejo, sobre as relações de interesse disfarçadas com sorrisos, mas que ali­mentam muita inveja e ganância. E se você acha que o melhor mo­mento de detectar um falso amigo é na hora que você mais precisa, está enganado. Geralmente as pessoas gostam de estar presente no seu momento de derrota, isso faz com que elas se confortem. O me­lhor instante para perceber quem finge torcer por você é geralmente quando você está se dando bem, quando começa a superar expecta­tivas. É exatamente ali que aquela pessoa demonstra o medo de ser superada e deixa escapar a inveja. E onde há inveja, onde há o medo de que o outro nos supere, não pode existir amizade verdadeira.

Nesse ponto, as mulheres têm ainda mais dificuldade, afinal, são extremamente competitivas. O homem, quando superado por outro, consegue partir para a próxima. A mulher, por sua vez, rara­mente aceita ficar atrás de outra mulher. Por isso, também são tão mais raras as amizades de longa data entre mulheres.

Chegue a um jantar, comece a falar sobre as coisas boas que tem lhe acontecido, sobre o dinheiro que tem ganho, sobre como tudo tem dado certo em sua vida. Perceba os olhares, tente deci­frar quem lhe olha com sincera admiração e quem está realmente feliz por você.

Presenciei isso há poucos dias. Enquanto um senhor discursava e contava sobre suas vitórias a seus ditos amigos, os olhares acusa­vam a complexidade dos sentimentos. Chegaram a dizer-lhe: “Mi­lagre você dizendo que as coisas vão bem”. O ar que já havia sido de clemência com o colega em infortúnio, agora estava carregado com a surpresa de quem temia vê-lo vencedor.

Cuidado, muito cuidado com a palavra amigo. Cuidado a quem conta suas vitórias e, principalmente, cuidado com sua ne­cessidade de ter amigos. Pois é geralmente aí é que nascem as grandes decepções.

Não é à toa que a maioria das amizades atualmente surgem em ambientes como as baladas. Lugares movidos por drogas, luzes e barulhos infernais, regidos pela insanidade dos vícios. Amigos e amigas de balada, gente que se conhece na noite e sob o efeito do álcool, contam seus pecados como se falassem à sua alma gêmea. Em meus 30 anos, nunca cheguei nem perto de fazer um amigo na noitada, aliás, desconfio de qualquer pessoa que consiga tal feito: é necessário muito vazio interior para se preencher com uma amiza­de que nasce em ambientes tão fúteis.

Amigos são sagrados, são testemunhas de que por aqui não só passamos, mas marcamos. Você é a média das três pessoas com quem mais convive. Pensando nisso me diga: quem é você?

A decepção começa muito antes da má escolha, a decepção ini­cia no simples fato de as pessoas não terem a mínima capacidade intelectual para saberem com quem estão lidando. Quem faz mui­tos amigos não é sociável, mas, sim, um desesperado.

Deus me livre de ter muitos amigos, seria um sinal claro de ter realmente nenhum.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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