A geração zumbi

Por: Felipe Sandrin | 23/06/2017 00:00:00

Há muito o ser humano vem relacionando o prazer à felicidade, mas, pela primeira vez, acreditamos e proclamamos o direito dos seres humanos a serem felizes. Está nas entrelinhas da lei e das constituições. Ora, mas se é de meu devido direito ser feliz, como eu posso não o ser? Onde está o criminoso que me impede? Diante da sociedade – entenda-se como todos nós sendo sócios – a minha felicidade se encontra no bem comum, o bem geral. Logo, se há fome, violência e dor no mundo, como eu posso ser feliz?
É um jogo delicado, com movimentos que a própria natureza humana não pode captar. Vamos supor que o mundo inteiro atinja seu nirvana, cessem as mortes violentas e prematuras, todos os povos se unam sobre o véu da paz. Ou vamos supor que a ciência encontre a pílula que traga a paz interior. Será, então, que seríamos todos nós felizes? Será que seríamos algo além de zumbis sorridentes e bobos?
A felicidade humana será mesmo algo a ser conquistado? Por que em tempos em que a tecnologia avança como nunca, em que guerras, fome e doenças são tão menos comuns que em outros tempos, por que há tantas pessoas que se declaram infelizes?
O suicídio é coletivo. Hoje, dez vezes mais pessoas morrem por doenças relacionadas à obesidade do que de fome. As pessoas morrem lentamente em goles de Coca-Cola, vícios em álcool e outras drogas. Os jovens frequentam baladas para “esquecer os problemas”. Ninguém mais quer assumir a tristeza, ela se tornou uma fria companheira de quem todos seguram a mão, mas ao mesmo tempo precisam escondê-la.
A fria face da felicidade. Ela não dorme, ela não descansa aos finais de semana. Você precisa beijá-la a cada esquina perante o risco de não pertencer à matilha dos saudáveis.
Sexo, vitrines de shopping, cinquenta sabores de pizza, um novo filme de super-herói todo o mês. O poder da escolha: estaria aí a felicidade? Desejos sobre desejos, um grande muro de consumos impossíveis. Você compra, você prova, você engole. Prazer rápido e momentâneo, dura tanto quanto sua paciência em uma fila para pagar o café. 
Pessoas confundido prazer com felicidade. Fazendo da alegria um vício frenético que não pode ser saciado. Roupa nova rende um dia feliz. Carro novo, uma semana de boas sensações.  Uma nova paixão e, de brinde, surge um mês de sorrisos bobos. As pessoas estão viciadas em sensações, na euforia cega do prazer.
Deprimidos, não sabemos o que fazer, não sabemos o porquê de termos acordado assim. Nas próximas horas, lutaremos contra essa sensação que parece nos consumir. Desmotivados, pensaremos em comprar algo, lembraremos das contas por pagar e tentaremos achar em qual curva da vida nos perdemos. Sexo, açúcar, álcool, dietas que duram menos do que nossa fome por bobagens. Roupas novas, sexo, alguma nova compulsão. Prazeres rápidos para suprir nosso imenso vazio, talvez algum novo medicamento.
É nosso contrato com o diabo. Nas entrelinhas de algum parágrafo que falava sobre a felicidade, não percebemos a palavra desejo. E o desejo, que tem por missão extinguir-se aos poucos, sufoca a felicidade.
Somos a geração zumbi, caminhamos por aí devorando qualquer prazer momentâneo. Mergulhados em uma fome que não pode ser saciada: a fome pelo consumo.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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