Novos penteados para velhas atitudes

Por: Felipe Sandrin | 07/06/2017 00:00:00

Você coloca a xícara com água no micro-ondas e aperta a opção “2 minutos”. Mas o que fazer nesse meio-tempo? Paramos para pensar na vida ou ficamos a observar xícara rodar lá dentro enquanto a água esquenta?
Lembra aquela época em que levávamos uns dez minutos para esquentar a água no fogão? Lembra quantas coisas conseguíamos fazer enquanto esperávamos? Chegávamos até a esquecer da chaleira no fogo. Pois é, aprendemos, década após década, sobre como “ganhar tempo”, mas o que estamos fazendo com esse tempo que ganhamos?
Observo jovens sentados em um muro, cervejas na mão, em frente a eles um carro de porta-malas aberto tocando um desses batidões moderninhos. Roupas legais, cabelos legais, sorrisos bem cuidados. Nada de anormal, apenas filhos de um mundo dito moderno. Estou longe e não posso ouvir o assunto em questão, provavelmente falem da festa que vai rolar final de semana, de como vão “tacar o terror”. Drogas e curtição: sempre foi assim, não é mesmo?
Não tenho dedos para contar os conhecidos que perdi durante esses anos, gente da minha idade que acelerou mais do que devia, que bebeu antes de dirigir e se perdeu no caminho de uma festa e outra.
Durante muito tempo, não entendi o zelo de meus pais, o porquê de meu pai não emprestar o carro, por que sempre precisavam saber aonde eu ia e com quem. Hoje entendo mais fácil isso, de fato eu era apenas um adolescente com minha cabeça fraca e meus ideais idiotas copiados de alguns comerciais de TV.
Os jovens nada sabem sobre a morte, eles são quase que imunes ao cruel feitiço do nunca mais. “Vou afundar minha mãe em desgosto, mas e daí? Vou fazer com que meu pai se culpe para sempre, mas que se dane”. Tá bom, talvez eu tenha exagerado. Jovens não pensam assim, pois jovens simplesmente não pensam.
“Sempre foi assim”, parece um belo argumento, até consola, né? Bom, é verdade, sempre foi, mas também é verdade que nunca foi tanto. Nunca jovens ansiaram tanto por desafiar a morte e nunca tantos jovens conseguiram executar a tarefa com tamanha perfeição. Drogas fáceis e baratas, tudo à venda na esquina. Carros velozes e camarotes. “Diversão”, alguns dizem a fim de esconder o verdadeiro sentido de tudo isso. A verdade é que os jovens estão ainda mais vazios que em outras épocas, lidam de forma infantil com suas frustrações e medos. Andamos bem vestidos, temos 30 anos e barba na cara, mas lá dentro somos os mesmos garotinhos de 16 anos com medo de crescer. Por isso desafiamos a vida, nossa cabeça ainda pensa que está em um jogo de videogame.
Nós acreditamos nesses sorrisos bonitos, nesses perfumes importados e nessas roupas que vestem tão bem. À nossa volta, o mundo parece adulto. As novas gerações parecem mais preparadas para dar conta do recado. Pura ilusão. Nunca uma geração esteve tão despreparada. Não sabemos o que fazer enquanto aquela xícara gira no micro-ondas. Para tudo queremos ganhar tempo, dirigimos mandando mensagem no celular, escolhendo a melhor pasta com músicas, planejando com qual das garotas sairemos à noite. Precisamos desesperadamente ocupar nosso tempo, pois qualquer tempo que nos sobre para pensar apenas nos faz lembrar como somos sozinhos e estamos mergulhados nesse vazio.
Disfarçadamente prontos para morrer. Uma geração bonita por fora, mas que está totalmente perdida dentro de si.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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